
Ele tinha um jeito todo especial para dizer verdades. Nuas e cruas. Envolvia cada parte do corpo dela com as palavras certas. Mirava nos órgãos mais sensíveis e despejava, gota a gota um pouco daquilo que ela não via, não ouvia e não sentia. Com sua delicadeza de fazer inveja, ele a fazia entender o que sequer imaginava precisar saber. Ele a fazia olhar para dentro de si mesma. Sentir-se para poder olhar em volta. Para enxergar os outros. Para perceber que não vivia numa ilha, sozinha.
Foram dias e dias nesse processo. E ela, que há muito havia trancado a porta para qualquer sentimento, começou a se deixar inundar. Alegria, tristeza, euforia, ansiedade, tranqüilidade, pressa, desmotivação. Eram tantas sensações ao mesmo tempo, que ela pensou estar enlouquecendo. Ficou com medo. E quando estava prestes a sentir o chão gelado, uma mão a suspendeu. Era ele. Com o mesmo ar especial e um jeito todo particular para fazê-la entender que ela conseguiria. Ela não resistiu. Deixou-se levar por sua voz suave e cada palavra percorreu seu corpo com uma força quase de He-Man. Levantou-se. Enxugou as lágrimas e olhou para aqueles olhos. Límpidos, suaves, penetrantes. E pela primeira vez, depois de uma longa caminhada, ela se permitiu relaxar. E se sentiu invadida pela paz. Agora, tinha certeza, não estava mais sozinha.


