
Dizem que uma das piores dores do mundo é a da partida. Mas eu discordo. Saudade queima muito mais. E é diferente de sentir falta. Sentir falta é pontual. É dor de beliscão com unha. Mas sentir saudade é algo maior. É uma dor que rasga por dentro dias seguidos e horas intermináveis.
A partida acontece em questão de minutos. A saudade? Ah, a saudade fica adormecida por dias, semanas, meses, esperando por um momento propício e sem mais nem menos, aparece avassaladora. Saudade não tem cor, mas pode ter cheiro. Não se pode tocar, mas sabe-se o quanto é grande. Pode ser um sentimento que alimenta um relacionamento ou o que sobra dele. Pode ser uma ausência suave ou um tipo de solidão. Pode ser uma recordação daquele momento e daquela pessoa, que um dia, mesmo sabendo ser impossível, ousamos querer reviver e rever.
Sentir falta é diferente. Sente-se falta do carinho antes de dormir, da implicância com o controle remoto, do jeito boboca que ele tinha de fazer caras e bocas para se mostrar em público. Sentir falta é mais egoísta. Sente-se falta do chinelo dele sempre ali, jogado displicentemente perto da porta. Da toalha sempre em cima da cama. Sente-se falta das músicas horríveis que ele costumava ouvir todos os dias após o jantar. Sente-se até falta dos programas esportivos que ele nunca abria mão de assistir antes de dormir.
Agora a saudade é uma só em diferentes palavras. É comum encontrá-la grafada nas lápides em alusão à dor da ausência provocada pela morte. Mas na Literatura e na Música é um tema crônico. É quem arquiteta a estrofe e conduz o tom.
A dor da saudade é grande. É infecção generalizada. É uma gripe daquelas, uma pneumonia. É a dor de quem encontrou e nunca mais encontrará; de quem sentiu e nunca mais sentirá. Mas a falta é daquilo que não está ali e que deveria estar. É a dor do controle remoto só seu. Do quarto todo impecável, da luz apagada e do CD-player em silêncio. A falta está na rotina, nas pequenas coisas concretas do dia-a-dia. Ela é pontual, mas pode aparecer todos os dias.
A saudade é dos dois. Saudade do frio na barriga, da praia, daquela festa à fantasia em que vocês se divertiram sendo ridículos, saudades dos preparativos para aquela viagem tão desejada. Saudade é de você mesma, com os olhos brilhando e, o coração sempre acelerado, mas reconfortado. Saudade é contínua. Falta é curta. Saudade é pó, falta é pedra. Saudade é soco no estômago, falta é puxão de cabelo.
E as horas seguintes são cheias de aflição. A voz de Cartola ainda presente: “Deixe-me ir, preciso andar, vou por aí a procurar, rir pra não chorar…”. Depois, só o silêncio incômodo. Nenhuma ligação. Nem os pássaros na gaiola faziam festa. Só a saudade e a falta. A saudade e a falta com dores distintas, clamam por aquilo que mais se teme: talvez a única solução possível é a mais temida e serve para as duas – o esquecimento. Era a canção certa, mas na hora errada. Tarde demais para trocar de disco.


