Na coluna desta semana eu pretendia dar sequência ao assunto da semana passada sobre a produção musical independente, mas vendo ontem as manifestações contra e a favor do governo, resolvi mudar de assunto e escrever um cadinho sobre a música de protesto. Não vou aqui me aprofundar nem fazer um trabalho científico sobre o assunto, apenas lembrar o papel importante que a música popular exerce sobre as pessoas, principalmente nesses momentos de crise.
Na Wikipédia, música de protesto é uma categoria que engloba cançõesde música popularcompostas com o intuito de chamar a atenção do ouvinte para um determinado problema da atualidade, seja ele de origem social, política ou econômica.
Usar a canção popular para protestar já era um recurso usado pelos Beatles, por exemplo, quando cantaram Revolution: “Você diz que quer uma revolução? Bem, todos nós queremos mudar o mundo!”.
No Brasil, na mesma época, aconteciam os festivais de música que começaram na TV Excelsior em 1965 e foram para a Record no ano seguinte, com nomes que iam de Geraldo Vandré a Chico Buarque, passando também por todos os nomes da segunda geração da bossa-nova que não cantavam mais sobre o barquinho que vai e vem. Chegou Edu Lobo e trouxe, por exemplo, Ponteio e Upa Neguinho, cuja letra dizia:
“Upa neguinho começando a andar,
Começando a andar,
Começando a andar
E já começa a apanhar”.
Entre todas, talvez Para Não Dizer Que Não Falei Das Flores de Geraldo Vandré seja a mais representativa, aquela que virou um hino da música de protesto da época da ditadura militar no Brasil. Com o AI-5 em 1968 e a partir daí, a dita música de protesto foi alvo explícito dos censores da ditadura e levou muitos compositores a deixarem o país. Mesmo que a apresentação de sua música no III FIC (Festival Internacional da Canção) tenha custado caro, pois ele foi preso e exilado, Geraldo Vandré, que voltou ao Brasil em 1973, quebrou um silêncio de décadas quando aos 75 anos declarou a Geneton Moraes Neto num programa da Globonews: “- Não considero Para Não dizer Que Não Falei das Flores um hino da música de protesto. Protesto é coisa de quem não tem poder. Eu não fazia música engajada, mas música popular brasileira”.
Tinhorão (1974, p. 234): “E isso enquanto o povo, tranquilo na sua permanente unidade cultural, estabelecida pelo semi-analfabetismo, e social, determinada pela pobreza e falta de perspectivas de ascensão, continuava a criar e a cantar alegremente os seus sambas de carnaval, malhando no bumbo em seu vigoroso compasso 2/4”.
A música popular mundial sempre serviu para pedir poder para o povo (Power to the People, John Lennon) ou dizer que a resposta está soprando no vento, como cantava Bob Dylan em Blowing in the Wind. Outro Bob, o Marley, pedia: “Levante-se! Levante-se pelos seus direitos! Não desista da luta!” na música Get Up, Stand Up. Muitos outros artistas populares cantaram pelo mundo afora o seu protesto, como U2 em sua música sobre a passeata civil que ficou conhecida como o Domingo Sangrento na Irlanda do Norte (Sunday Bloody Sunday) e muitos outros engajados de alguma maneira a movimentos humanitários como, por exemplo, o Live Aid de Bob Geldorf.
No Brasil dos anos 80, bandas como Legião Urbana, Plebe Rude, Paralamas do Sucesso, Titãs, Ira e tantas outras surgiram cantando com força a sua indignação contra a injustiça e a falta de perspectiva. A Legião Urbana de Renato Russo cantava:
“Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola”.
E a Plebe Rude na música Até Quando Esperar:
“Não é nossa culpa nascemos já com uma benção
mas isso não desculpa pela má distribuição
Com tanta riqueza por aí, onde é que está
cadê sua fração?
Até quando esperar a plebe ajoelhar
esperando a ajuda de Deus
Até quando esperar a plebe ajoelhar esperando a ajuda de um divino Deus”.
Hoje, a moçada do rap grita em alto e bom som as suas desilusões e a sua decepção com o sistema. O importante é que a música popular continue a exprimir os anseios de todos por justiça, contra a intolerância e a desigualdade de oportunidades entre as pessoas. Povo, que seja feita a sua vontade, pois “paz sem voz, paz sem voz não é paz, é medo!” (O Rappa, em Minha Alma).
*Esta coluna é semanal e atualizada às segundas-feiras.


