
Ela aprendera a andar cedo. Para se comunicar e mostrar ao mundo o que queria e sentia, não media esforços. Mesmo com sua fala complicada e engraçada pela pouca idade, ela se fazia entender. Carinhosa, meiga, sensível, amava tudo e a todos. E mesmo quando foi crescendo, todo esse amor e pureza ainda transbordavam de sua alma. Sofria pelas dores do mundo. Queria tirar de si para dar aos outros. Chorava pelas diferenças… Fossem elas sociais, de saúde, de amor. Com o tempo, foi conhecendo a maldade do mundo. As artimanhas do homem para conseguir o que quer. A inveja. A mentira. A intriga. Essas coisas entraram como punhal em seu corpo, em sua alma. Chorou. Um choro sofrido. Mas decidiu se fechar. Em copas, atrás de muros imaginários que a manteria distante do sofrimento. Inabalável. Sentindo-se forte, foi levando a vida. Um, dois, três anos. Passaram-se 40 anos desde que aquele muro fora erguido. E hoje, cansada, ela olha pra trás e vê quanto sentimento deixou passar por medo de sofrer. Quantas palavras não ditas. Quantas pessoas que não se aproximaram. Quantas situações não vividas. No meio de tantos quantos, o muro começou a ruir. Pedra sobre pedra caía a cada lágrima contida durante tantos anos…
Numa explosão de sentimentos, de lembranças, ela chorou como aquela criança sensível de outrora. Adormeceu e ao acordar, olhou-se no espelho. No fundo daqueles olhos azuis ela ainda conseguia ver aquela menina. Aquela que tanto se encantou pelas coisas simples e boas da vida. Era hora de deixá-la sair para brincar. Sem receios do que o mundo moderno oferece. Sem amarras. Nem expectativas. Só com o coração aberto e a certeza que muito ainda tinha para aprender e viver.


