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Aromas em Palavras

Então é Natal!

23 de dezembro de 2015 4 min de leitura

O amanhecer do dia vinte e quatro de dezembro já tem ares de Natal, definitivamente meu feriado predileto desde criancinha. Aliás, um feriado que tem cara de infância, ele nos enche de amor e esperança, sentimentos dessa fase inesquecível da vida! Diferente da maioria das datas comemorativas, ele é o que nos traz mais memórias olfativas, uma combinação de cheiros convidativos e aconchegantes.

Véspera de Natal era época de acordar cedinho, trocar de roupa e ir pra casa do vô e da vó, por lá o peru no forno já perfumava a casa toda com o cheiro mais característico do Natal, mas infelizmente tínhamos que esperar a ceia para degustar o prato mais esperado e que virava o ‘já te vi’ do resto da semana toda com suas mais variadas combinações. A mesa já começava a ser arrumada, porque Natal era época de petiscos variados por todo o dia. O vô já pegava uma bela fruteira de prata, o que ocupava e diminuía a ansiedade das crianças, e assim brincavam de arrumar as mais variadas castanhas, damascos, passas, tâmaras e figos.  Claro, não podemos esquecer das azeitonas e seu aroma característico de oliva!

Num cantinho da cozinha as duas caixas mais assaltadas durante todo o dia: a caixa de uvas e a caixa com pastéis de carne. As uvas niágara personagens constantes nessa época com aquele cheirinho fresco e doce que se mistura com o cheiro de madeira da caixa, e não há quem não resista a pegar um cachinho e ir saboreando aquelas bolinhas arroxeadas. Já o pastel, era uma tradição familiar, de uma pastelaria muito famosa na cidade e prato predileto de um tio.

No armário, a sobremesa que já era tradição por mais de 50 anos na família: o pudim da Vó Emma, uma deliciosa receita italiana da bisavó de pudim de doce de leite e figos.  Depois de muito roubar as comidas que estavam sendo preparadas para essa noite, era hora de ajudar a abrir mais cartões que chegavam aos montes dos amigos e a incumbência era sempre dos netos de abri-los e enfileirá-los sob árvore de natal com aquele cheirinho de tinta de caneta bic e suas variadas músicas que tocavam ao ser abertos.

Na vitrola, o ruído da seleção especial de discos de vinil de Natal que embalavam todo aquele contexto, os clássicos nas mais variadas vozes. Discos, os quais se perderam no tempo, mas ainda guardo na lembrança o cheirinho do vinil recém-tirado do plástico. Mais a tardezinha, era hora de terminar a mesa para a grande noite, com o enfeite perfumado de ciprestes e bolas de Natal anunciavam que era hora de ir para casa se arrumar e voltar logo para reunir a família.

Quando voltávamos mais a noite, a sala era uma mistura dos mais variados perfumes de cada um, do delicioso vinho de galão que o vô sempre comprava e daquelas comidas que foram preparadas com tanto carinho durante todo o dia. Uma prece era feita seguida da ceia e enfim, a hora mais esperada: a troca de presentes! Muita alegria, brincadeiras e abraços que me fazem lembrar do cheirinho daqueles que já foram. No final da noite, os porteiros do prédio famintos pelos mais diversos aromas das ceias que ali aconteciam, ganhavam várias marmitinhas das famílias.

Manhã do dia vinte e cinco, aquele cheirinho de papel de presente no ar, a felicidade ao ver o presente e ao mesmo tempo tristeza por não ter conseguido acordar a tempo de encontrar o Papai Noel por mais um ano. Com o passar dos anos, assim como nós os cheiros mudam e amadurecem, mas os antigos ficam na memória. O peru ainda continua na ceia, mas não tem o cheiro do tempero da minha avó; a uva ainda tem o mesmo sabor, mas já não é mais furtada da caixa; os acordes mudaram, mas a música ainda é a mesma!

Que esses cheiros e tantos outros marquem o Natal de cada um, e que a cada vez que os sentirmos se transformem em muita fé, esperança e amor.

FELIZ NATAL!

*Esta coluna é semanal e atualizada às quintas-feiras.