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Aromas em Palavras

Oh, chuva! Eu peço que caia devagar…

31 de março de 2016 3 min de leitura

Era segunda feira à noite, hora de descansar a cabeça depois de um dia puxado, já sentada no sofá tentando achar algo mais leve que política na TV para assistir. Clarões começaram a surgir pela janela do meu apartamento com poucos minutos de diferença um do outro. Passado um tempo, raios seguidos de sonoros trovões e ventania vieram fazer parte do espetáculo. Não que eu não goste de chuva, mas tenho um passado de muito medo com esse fenômeno, principalmente os trovões, isso passou com os anos, mas noites de grande emoção ainda me deixam assustada.

A chuva caiu, com o cheiro vindo da rua pela janela e o silêncio da casa (afinal, depois de alguns incidentes virou regra desligar aparelhos eletrônicos da tomada por conta dos raios) começaram os pensamentos para esse texto, para falar a verdade um dos cheiros mais adorados do mundo: Petrichor! A palavra foi cunhada em 1964 por pesquisadores da Agência Nacional de Ciências da Austrália, ela vem do grego petra (pedra) e ichor (da mitologia, sangue etéreo dos deuses), o tão adorado cheiro da chuva, associado a sensações de prazer e bem estar em todas as culturas. Ainda não existe em dicionários, mas pode ser facilmente buscada pela internet como Petrichor ou Petricor.

Por definição, é o cheiro que fica no ar depois da chuva cair no solo seco, o cheiro da terra molhada, o cheiro do orvalho. No único lugar do mundo onde já havia sido caracterizado antes, na Índia, era chamado de ‘perfume da terra’. Quando gotas se precipitam em velocidades baixas ou moderadas e atingem uma superfície porosa como a terra, pequenas bolhas de ar ficam presas nestes minúsculos poros; estas bolhas são então liberadas na superfície da água, carregando com elas elementos aromáticos do solo na forma de aerossóis. Uma vez suspensas no ar, estas partículas podem se espalhar pela atmosfera por meio do vento.

Outro ingrediente é a geosmina, uma substância química produzida por bactérias chamadas actinomicetos. Ao produzir esporos, os actinomicetos liberam geosmina, que é lançada no ar quando chove. Existe, ainda, um terceiro ingrediente, que normalmente aparece durante tempestades: ozônio. Produzido, nesse caso, em uma série de reações iniciada por fortes descargas elétricas na atmosfera. O cheiro é parecido com o de cloro, e às vezes é possível senti-lo antes de a tempestade chegar porque o ozônio é facilmente deslocado.

Como é possível ver, este é um aroma complexo e difícil de ser descrito e estudado, pode ter cerca de cinquenta compostos químicos distintos. E, às vezes, ao se espalhar, se vier de um chão contaminado, pode vir acompanhado de bactérias e vírus perigosos. Afinal, nem o cheiro da chuva é perfeito. Claro que depois do estudo feito pelos cientistas australianos não faltaram ideias para um perfume Petrichor de verdade, mas até onde se sabe, nenhuma ideia foi pra frente. Continuaremos aproveitando esse cheiro só quando chover mesmo, ao menos por enquanto! 

*Esta coluna é semanal e atualizada às quintas-feiras.