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Refém da angústia

17 de outubro de 2017 4 min de leitura

Fazia muito tempo que eu não via a noite se alvorecer. Aquela nesga de escuridão se dissipando, cedendo lentamente, até se transfigurar numa pálida luz verde-maçã. O sol nascera todos os dias de minha existência e, curiosamente, somente agora que ela se esvai, fui capaz de sorvê-lo, observando cada variação de entonação. Como eu haveria de cometer a estupides de morrer sem parar para admirar um alvorecer? Seria uma lástima!

O tiquetaquear do relógio parecia zombar da minha aflição. Na cama, labaredas esguias pareciam fritar minha pele. Cada segundo era uma eternidade. O sono parecia um animal receoso, a estudar o terreno, esperando o momento oportuno para desferir-me um golpe certeiro, o que não ocorrera. O pior de sofrer é amargar o sofrimento em silêncio na madrugada, afinal, seria egoísmo meu, perturbar o sono alheio com minha angustia. Somente o vento caminhava deliberado pelas ruas, acariciando a copa das árvores e penetrando nas casas que dormiam apagadas. Por motivos óbvios evitei o espelho, mas, sucumbi a uma olhadela de soslaio, o suficiente para furtar o reflexo deprimente de uma caricatura maltrapilha, forjada por algumas horas de insônia. Ah! Eu que sempre gostei de minha fisionomia, agora a evitava com todas minhas forças, como se o processo de despedida de meu ser já estivesse em curso. Meus sentimentos eram um misto de rompantes de histeria, que praguejava contra a lentidão da noite, contrastando com a melancolia, no medo do dia que nascia. Cigarros, fumei tantos quanto a indústria era capaz de produzir.  E descobri que mente, quem diz que acalma os ânimos.

No trajeto para o hospital eu tentava controlar um nervosismo inconveniente, ao passo que convencia-me de que era preciso ser forte, já no corredor, frio tal qual uma lápide, sentia que isso não seria possível. Àquela altura, o médico provavelmente lia seu matinal e tomava um café em família, sem imaginar que seria meu carrasco ao abrir o envelope. E tive pena dele. Ao pensar desta forma, afinal, ninguém ingressa na medicina pensando em ser um mensageiro da morte. Tudo era fúnebre. E, de repente, eu estava a passar toda minha vida em mente, tal qual aquelas revistas que eu folheava na recepção. Havia tanta coisa a ser feita ainda. Tanto havia a ser dito. Tanto a ser vivido.

 Um caroço, biopsia e eu. Derrotado, tentando ler cada palavra impressa naquele diagnóstico, através da face do médico, tão focado estava nela. Era capaz de furtar cada piscar de olho, cada movimento involuntário em sua tez. O coração parecia tentar romper cada tentáculo que o ligava a meu corpo.

 Pela forma com a qual reagira o médico, soube imediatamente que eu não era o único desequilibrado que lhe furtara a papelada e se negara a ouvir seu diagnóstico. Fosse ele qual fosse.

 -Perdoe-me doutor, mas, não quero saber. –Dizia eu todo trêmulo, refém do desespero que arrastava meu corpo para longe dali. Minha morte era certa. E eu não precisava ouvir isso de ninguém, ainda que os termos fossem ajustados para propor-me esperança. Ora! Tenho o direito de escolher como findar minha vida.  Eu parecia estar caminhando com agua até os joelhos, tão pesadas estavam minhas pernas. A respiração ardia, os olhos encharcavam-se e o coração batia em toda parte, sufocado por angustiada agonia. O alarido do trânsito aumentara minha confusão, e percebi tarde demais que já estava bem no meio da rua, atrapalhando o trânsito, sendo atropelado. O chão acolheu meu corpo adormecido com brutalidade. O mundo rodopiava lentamente. Tudo era turvo. Pessoas se assomavam pronunciando palavras confusas. Minhas mãos trêmulas recorreram-se institivamente ao papel furtado, agora manchado pela vermelhidão do sangue. E num último esforço, pude ler claramente, entre tantas termologias médicas, “células cancerígenas –Ausente”.

*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.