
Se eu pudesse eleger um estado brasileiro que eu me senti muito bem recebida por duas vezes eu diria Bahia! Já conheci diversos lugares por esse Brasil, mas se existe um lugar que sabe receber o turista é a terra de Dorival Caymmi. Como ele mesmo escreveu: “Você já foi a Bahia nega? Não? Então vá!” E não poderia ter estado melhor nesse país para ‘inaugurar’ uma maravilhosa novidade, uma identidade olfativa daquele lugar. Cheiro de brisa de mar, de alfazema, de comida, ou azeite de dendê. Quem visita, em particular, Salvador ou até mesmo vive lá responde assim à pergunta sobre qual o cheiro da cidade: suor, cerveja e até mesmo xixi. Há até mesmo subjetivos que descrevem esse aroma: cheiro de alegria, hipocrisia ou até mesmo axé. Sim, foi o que se ouviu em uma pesquisa feita pela prefeitura, que em parceria com a empresa cosmética baiana de Ilhéus, Avatim, desenvolveu essa novidade.
A grande maioria dos entrevistados diz que o cheiro devia ser algo que lembrasse a brisa do mar ou quem sabe a alfazema dos filhos de Gandhy, ou num cheiro de erva doce. Quem sabe até um cheiro de arruda, não muito forte, mas agradável e que espante o mau olhado. O certo é que Salvador ganhará, em breve, um cheiro misto no ar: noz moscada, alecrim, cardamomo e zimbro se misturam com a bergamota, mandarina e limão siciliano, madeira de cedro, grapefruit e flores brancas, além dos tons amadeirados de cashmere, vetiver, âmbar cinza e almíscar. Juntos, eles formam o Xêro, espécie de identidade olfativa da cidade que será espalhada em pontos turísticos e festas como o Réveillon e o Carnaval.
O xêro é inspirado, também, na alegria e festividade da população. Já os toques de flores brancas buscam trazer à memória as oferendas, as águas de cheiro das baianas usadas nas lavagens. São essas fragrâncias que carregam a identidade do perfume. As notas de fundo são as mais densas e permanecem por mais tempo no ar. Elas ampliam a magnitude dos demais acordes e finalizam o Xêro com notas amadeiradas de cashmere, vetiver e âmbar cinza, entrelaçados ao equilíbrio do almíscar.
Tudo começou com um sonho da diretora da Avatim, Mônica Burgos. Uma carnavalesca apaixonada começou a pensar na importância de criar esse cheiro, essa identidade, afinal é um lugar que já possui tantas coias culturais que o marcam: a alegria, os festejos, as religiões, etc. E a proposta foi colocar tudo isso em um cheiro. A princípio o foco será em Salvador, o aroma será esplahado em hotéis, aivões, aeroportos, agências de viagens, além de pontos turísticos e festas populares. Futuramente o Xêro poderá também, ser vendido como souvenir, para que as pessoas possam levar um pedacinho da Bahia para casa e relembrar o que viveram por lá. Serão disponibilizados dois produtos: aromatizadores de vareta de spray e sabonetes em barra e líquido. Para chegar ao aroma da capital baiana, foram ouvidos soteropolitanos e turistas de idades e classes sociais variadas. A partir das respostas, a empresa foi montando opções de aromas. A perfumista Luciana Bergamasco, da Vollmens, grupo parceiro no fornecimento da essência, assina a criação, mas o cheiro final foi escolhido por um grupo de integrantes da prefeitura, incluindo ACM Neto.
A primeira experiência de Salvador com identidade olfativa foi no Réveillon, na virada de 2015 para 2016. O cheiro de lavanda, inspirado nas águas de cheiro, também foi desenvolvido pela Avatim e batizado de Mercado Modelo. Durante a queima de fogos, 140 litros do perfume foram vaporizados próximo ao palco e nos camarotes na Praça Cairu. Uma pequena experiência que se transformou em um grande projeto e que com certeza deve ser copiado em várias outras capitais para estimular o turismo. Somente dois outros pontos turísticos no Brasil possuem fragrâncias próprias: o Copacabana Palace e o Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
Só sei que não vejo a hora de sentir esse Xêro!!!
*Esta coluna é semanal e atualizada às quintas-feiras.