
Ernest Hemingway teria dito uma vez que se alguém se perder na selva africana ou no deserto do
Saara, sem o menor sinal de vida, não precisa se desesperar. Basta começar preparar um dry martini.
Imediatamente irá aparecer alguém do nada e dizer que a dosagem de gim e vermute
esta errada.
Histórias à parte, não é difícil encontrar quem tenha uma receita exclusiva do dry martini, ou
apenas martini. A maioria dos barmans e apreciadores conhecem uma receita inédita, um
pequeno detalhe a mais ou a menos que, segundo eles, fará toda diferença para o coquetel mais
famoso do mundo.
Batido ou mexido, com azeitonas ou casca de limão, esse drink seco, cheio de controvérsias, leva
em sua preparação o gim como ingrediente base e vermute bem seco como coadjuvante. As
discussões mais calorosas quase sempre diz respeito a dosagem certa dessas duas bebidas e a forma como são misturadas. Alguns defendem apenas algumas gotas de vermute sobre pedras de
gelo, seguido por uma dose de gim. Outros nem isso, preferem, como gostam de brincar, apenas
a sombra da garrafa do vermute sobre o destilado.
Cheio de lendas e rituais o dry-martini tornou-se ícone pop da cultura ocidental e conquistou
apreciadores no mundo inteiro, anônimos e celebridades como Cary Grant, Winston Churchill,
John Doxat – famoso escritor americano que dedicou um livro inteiro sobre a bebida – e Ian
Flemming criador de James Bond o mais famoso agente secreto do cinema que prefere o dry martini
com vodca, em vez de gim e batido, nunca mexido. Lembram?
Um drink com alma, o dry martini é belo em sua simplicidade:
dois ingredientes que combinados provocam uma viagem transcendental que nos
leva até um momento de êxtase ao sentir os sabores e aromas na boca, que deixa
uma saudosa lembrança ao final do gole.

Não irei finalizar meu texto escrevendo minha receita do drink. Invés disso, entre tantas
incidências na literatura a respeito, subscrevo as palavras de Buñuel que descreve com deliciosa
riqueza de detalhes seu ritual para preparar o drink em “Meu último suspiro”:
“Meu drinque favorito é o dry martíni. Considerando o papel primordial que ele desempenhou em
minha vida, vejo-me obrigado a dedicar-lhe uma ou duas páginas…
(…)Compõe-se essencialmente de gim e gotas de vermute, de preferência Noilly-Prat.
Convém que o gelo utilizado esteja bem frio, bem duro, para não soltar água. Nada pior do que
um martíni aguado..
Guardo tudo o que é necessário no congelador na véspera do dia em que espero os meus
convidados, os copos, o gim, a coqueteleira. Tenho um termômetro que permite certificar-me de
que o gelo está numa temperatura de cerca de vinte graus abaixo de zero.
No dia seguinte, quando chegam os amigos, pego tudo o que preciso. Sobre o gelo bem duro
despejo algumas gotas de Noilly-Prat e meia colherinha de café de angustura. Agito tudo, depois
jogo fora o líquido. Preservo apenas o gelo, que carrega o ligeiro vestígio dos dois perfumes, e
sobre o gelo despejo o gim puro.
Sacudo um pouco e mais e sirvo.
É só isso, mas é insuperável”.
*Esta coluna é semanal e atualizada às quintas-feiras.


