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Entre o onírico e o real

Por Entre linhas 14 de dezembro de 2015 3 min de leitura

Folheava aquele livro que nunca mais conseguia acabar. Reli a contracapa, e distraída deixei-o cair numa das minhas noites em claro, pedindo ao sono que me levasse. Uma foto bem antiga caiu de dentro, mal revelada, disforme, confusa. Percebi-te nela, relembrei o momento e o local. Lembrei-me porque a tinha guardado, ao percebermos que era só nossa, que só nós a entenderíamos. E tudo isso me chega aos olhos. Negros – e agora um pouco fundos –, que se recusam a adormecer. Eu, sem opção, os acompanho, embora não saiba bem se o faço dormindo ou se acordada ainda estou. Minhas noites de insônia são sempre assim, espaços difusos entre o onírico e o real.
Entre um e o outro, meus olhos decidem pela vida. Indepen-dentes, percorrem os aposentos da casa ou vão além para passear por avenidas, ruas, quase sempre por becos vazios nos quais tantas vezes me viram perdida. Mesmo parada, ainda assegurada pelos outros sentidos de que permaneço sobre o drapeado dos meus lençóis, sigo seus trajetos.
Neles, vivencio em repetição as experiências do meu baú de memórias. Em outras ocasiões, no ineditismo das ilusões, expe-rimento novos pensamentos e sentimentos – olha lá: de repente sou eu dançando embaixo de chuva uma música que os olhos não são capazes de escutar. 
Volto meu olhar para a foto caída no chão. Lembrei-me de tudo, do teu rosto que ria, nas palavras que me oferecias como beijos, incessantes, quentes, lentos, infindáveis. Olhei a foto, porque já nada se percebia, desfocado, o teu rosto tinha a aparência dos dias de hoje, dos dias em que já não estavas, das memórias atraiçoadas pelo caminho onde as nossas vidas se voltaram a descruzar.
Olho outra vez a nossa foto, percebo teus braços que me chamam, que não se querem separados por memórias, que agora percebo, nunca vencem o tempo. Percebo a foto, e as histórias que sempre ficam, apenas escritas, apenas fotos, desfocadas do tempo, difíceis de guardar, como as nossas vidas, que um dia caíram do livro, já antigas, já passadas, mas vivas.
Toda a cena, linda, me pede mais que meia dúzia de imagens em movimento. Lentamente, meus olhos começam a se fechar num sonho completo… audição, olfato, tato e paladar. Só então o dia amanhece lá fora, longe de mim e das minhas pálpebras cerradas.

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