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Limpando o armário

Por Entre linhas 27 de novembro de 2015 2 min de leitura

Era dia de faxina. Um dia sem sol, abafado. Meio cinza. No armário, coisas amontoadas. Para cada peça, uma história. Tirei do fundo das gavetas lembranças que não uso mais. Joguei fora algumas ilusões. Papéis de presentes que nunca usei. Sorrisos que não chegaram a ser dados. Encontrei bem no fundo, paixões escondidas, desejos reprimidos, palavras horríveis que nunca quis ter dito.
O que antes julgava que seria fácil, simplesmente me desfazer do que eu achava que não me servia mais, fazer uma faxina, jogar fora os entulhos, raivas, mágoas, desencantos, dissabores, era puro engano.
Foi então que percebi que não sabia nada. Que nunca guardei coisas que não me serviam. Essas eu já havia jogado fora há muito tempo ou se foram, partiram ou partiram-se. O que ficou tinha valor: pedaços de sentimentos e vivências amassados pelo chão, onde eu havia escrito: deixa pra lá!
Frases que ouvi, coisas que jamais esqueci, sons que reverberavam nas paredes. Entulhos e mais entulhos que sufocavam minha voz, atavam minhas mãos. Fui em busca da minha verdade, da essência de tudo. Organizei sentimentos, ações, pensamentos em fichários, arquivos independentes. Foi com eles que aprendi a não me culpar, não ser tão dura comigo mesma. Aprendi a fazer as coisas a meu tempo. E entendi que não preciso ser forte sempre, que posso errar e cair e está tudo bem! Aprendi a lidar com a verdade. Tenho praticado cada vez mais aceitar as pessoas e as situações como elas são, não como eu gostaria. Não estou mais em posição de defesa, nem presa a resultados. Então eu arrisco. Jogo-me. Aposto para ver. Deixo-me levar pelo rio e brinco com os peixes.
De volta a meu armário, percebo que a bagagem que hoje carrego, é muito leve. Mas ainda assim, decido me desfazer de algumas peças soltas. É dia de faxina. Não dá para adiar. Nem voltar atrás.

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