Quando a morte visita a nossa casa, ela deixa uma nuvem escura de tristeza como lembrança. Mesmo que esteja fazendo sol, o cinza que embaça a nossa visão não muda de tom. E a gente se sente pequeno, encolhido, abafado, desiludido e sem chão. É o luto que invade a nossa alma.
Perdi um parente e um amigo.
Foi meu vizinho na infância, e embora nunca tenhamos brincado juntos, porque ele era muito mais novo, tenho uma longa história pra contar. Nasceu temporão e como todos os caçulas, foi muito “cocorado” pela mãe, pelo pai e pelos irmãos. Era danado até não poder mais. Subia no telhado e pulava para o nosso, quebrando umas telhas de vez em quando. Meu pai ficava bravo e falava – esse menino ainda vai cair de cima da casa e quebrar as costelas. Nunca quebrou.
Ficou moço, virou “gente”, parou de subir nos telhados, ficou amigo lá de casa. De vez em quando dava uma passadinha pra um café ou alguma quitanda da minha mãe. Não faltava nos aniversários, participava da vizinhança.
Foi bom aluno, formou em Direito, advogado. Por coincidência começou um namoro com uma sobrinha. O namoro engatou, deu certo, casaram. Um par perfeito, se é que existe a perfeição. Depois de um tempo, o plantio deu fruto e nasceu o Orlando, um menino inteligente, amoroso, meigo, bem educado. Que linda família!
Tivemos muitos momentos bons. Escrevemos várias historias ao longo dos anos, muitas com registros e fotografias, outras que ficarão apenas na nossa lembrança.
Gostava muito de dormir na roça, dos almoços na Vó, das roscas da Luzia, dos E.U.A, da Maçonaria (da qual tinha muito orgulho de pertencer). Era apaixonado pelo Star Wars e pelas histórias alienígenas. Acho que até sonhava encontrar um E.T.
Nem bem passava o carnaval e já me perguntava sorrindo – você vai fazer o Natal esse ano? Eu dava risada e falava – mas já é hora de pensar nisso? E ele dizia que gostava de prevenir, deixar sua vaga reservada e pedia – Posso levar a minha santinha? ( a mãe Darquinha, nossa eterna vizinha).
Ano passado foi exatamente assim… tudo combinado com antecedência, com exceção da Santinha, que não estava mais presente. E foi um belo final de ano, um Natal abençoado, bonito, com luz de velas e oração, cheio de expectativas para um ano novo de alegrias…
Entrou janeiro, um mês chuvoso, de tempo esquisito e algo já começou a dar errado. Lá longe dos nossos olhos, sem dar sinal algum de que iria partir, ele se foi. Simplesmente deitou, dormiu e não acordou mais. Foi morar do lado de lá. Que sono terrível esse, o sono da eternidade. Como alguém se vai assim, sem avisar?
A nós, o que restou? A indignação, a dor, o espanto; e a imensa tristeza da separação tão abrupta e precoce…


