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Marcas (III)

Por Cesar Colleti 1 de julho de 2016 2 min de leitura

Expressões como “navegadores de cabotagem”, “filosofia de almanaque” ou “discurso de boteco” refletem ponderável julgamento de críticos e analistas da produção literária brasileira, particularmente de “autoajuda”, “romântica”, “pornô”, variadas formas de crônica, etc.

“Cabotagem” é o exemplo típico. Pode ser entendido como o curto trânsito da embarcação que navega pelo litoral somente, uma vez que não dispõe de recursos para as exigências de mar aberto, aonde estaria sujeita à inconstância e diversidade de situações complexas, ao comportamento incerto da natureza a requerer experiência, superior estrutura e preparação técnica… Entre letras e letrados, “cabotagem” é também a fácil navegação da cultura deficiente, limitada, manifesta na temática pobre, indigente, repetida em insistente exercício de “salva-vidas” (mecanismos entre jornalistas referidos como “nariz de cera”, “caixote”, “rocambole”, “clichê” e outros recursos primários).

É fácil verificar: toda mensagem é composta por marcas “significativas”. “Signos” evidentes ou não de que “o conhecimento de nenhum homem pode ir além de sua própria experiência” (John Locke). “Experiência” é história, a soma de uma vida, adquirida no dia a dia vivido na família, na escola, nos estudos, nas leituras, no trabalho, na convivência sadia e enriquecedora com a cultura e a civilidade de pessoas inspiradas. Por onde passou física, mental, emocionalmente; pelo que sentiu, experimentou, imaginou…. Enfim, todo o acumulado, entendido, analisado, julgado, arquivado, lembrado ou esquecido. Mas integrado à personalidade, consciente ou inconscientemente, em forma de “conhecimento” que se traduz em “cultura pessoal”.

Ora, sem o lastro de uma boa formação cultural ninguém consegue ir além do pouco que sabe. E muito menos falar, escrever, lecionar, discutir, argumentar…. Mas pode ter adquirido a sagacidade da raposa, a astúcia dos aproveitadores e enganar! Enganar com sua “filosofia de almanaque”, em embriagados “discursos de boteco”. E receber homenagens encomendadas de “honoris causa”. 

*Esta coluna é semanal e atualizada às quintas-feiras.

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