sábado, 13 jun 2026 ⛅ Franca 23°C
DólarR$ 5,18▲ 0,0%
EuroR$ 5,98▲ 0,0%
Selic14,50%▲ 0,0%
BitcoinR$ 326 mil▲ 0,0%
zero

RISTORANTE MANSUETTO – Que bom que existiu

Por Cesar Colleti 14 de dezembro de 2015 4 min de leitura

A entrada da chácara, onde o Ristorante Mansuetto se localizava, dava boas vindas com seu enorme jardim acaçapado de flores, árvores e pinheiros, sempre bem cuidado pelas mãos do senhor Cláudio, caseiro e manobrista do local. O prédio, com exceção da cozinha, fora todo construído de madeira. A varanda, envidraçada, frente ao jardim da entrada, hospedava uma charmosa lareira de pedra – espaço disputado por pares românticos em noites de temperaturas baixas e chuvosas.

Dona Júlia, Daniel, Erlindo, Pio.. e outros músicos, se revezavam tocando “por una cabeza” no piano da sala principal . Nesta, num canto, a mesa nove era minha preferida, donde se via, por uma grande janela, sete copas decorados por luminárias feitas com fundos de garrafas e velas.

Sob eles, mesas de jardim em mosaicos convidavam a uma happy-hour que se estendia noite adentro em épocas de céu claro. Logo na entrada, a adega, com colmeias móveis e portas de vidros, não passava despercebida; foi construída logo após a escada que dava acesso ao salão principal, num espaço onde apreciadores de vinhos podiam adentrar e, sob uma temperatura de 14,15 graus, escolher o vinho que acompanharia a refeição – mimo que poucos se desobrigavam.

Sem muito esforço me vem à mente noites movimentadas com mesas tomadas por taças bojudas de Montepulccianos e Barolos disputando lugar com bruschettas, pães e azeites italianos temperados com sal e manjericão. Senhoras elegantes, com seus vestidos exclusivos passeavam pelos corredores admirando os bonitos quadros e panos europeus nas paredes de madeira. Numa época em que fumar no ambiente era tolerado, rapazes e senhores finalizavam grandes negociações, iniciadas durante o jantar, com rodadas de cognacs e charutos Habana nas mesas dos jardins.

Garçons, garçonetes, como num grande espetáculo, estavam sempre devidamente treinados, bem vestidos, agradáveis e surpreendentes nas explicações sobre os pratos do dia, criados pela dupla de chefes, Chico e Wagner.


Semana passada, ganhei de uma cliente – com quem compartilho meus pães toda sexta-feira de manhã – uma travessa de nhoque de batata que ela havia feito para o almoço logo mais. Levei para casa, congelei e esperei a segunda-feira próxima para prepará-lo no jantar com amigos.

Lembrei-me do Mansuetto. Lembrei-me que o casal convidado havia se conhecido e trocado alianças sob a luz de velas no restaurante, e que um dos seus pratos preferidos do cardápio era o nhoque com pomodoro e basilico, servido numa cestinha feita com queijo parmesão. Resolvi fazer uma deliciosa surpresa para os dois. Com certeza a empreitada traria boas recordações e longas conversas nostálgicas. Fui pra cozinha determinado a reproduzir de maneira fiel o nhoque do Chicão.

Comecei com o molho.

Fritei no azeite uma cebola picada até ficar translúcida, juntei o alho e dourei mais um pouco.

Acrescentei um punhado de tomates italianos concassê. Salteei a mistura e deixei em fogo baixo por 40 minutos mais ou menos. Juntei um bouquet garni. Mais meia hora no fogo baixo. Corrigi o sabor com sal e equilibrei com um pouco de açúcar. Encerrei a cocção quando a maior parte de água fora evaporada e o molho ficou levemente espesso, aromático e com um leve brilho.

Reservei.

Fiz as casquinhas de queijo.

Aqueci, na boca do fogão, uma frigideira larga e antiaderente, untada ligeiramente com azeite.

Salpiquei parmesão ralado grosso preenchendo todo o fundo da panela. Deixei derreter até formar uma manta. Quando começou a dourar, tirei do fogo e com o auxilio de um pegador arrastei a manta de parmesão, quente, sobre uma cumbuca de louça virada de boca para baixo.

Deixei esfriar. Reservei.

Finalizei o prato.

Próximo à hora do jantar, cozinhei o nhoque em bastante água fervente. Logo começaram subir à superfície. Retirei com cuidado usando uma escumadeira. Separei em porções, e coloquei cada uma nas cestinhas de queijo sobre pratos. Reguei com o molho reaquecido. Finalizei decorando com flores de manjericão.

Comemos ouvindo Rod Stewart cantando Sailing – selecionado especialmente para a ocasião. Bebemos um Chianti barato, daqueles de cestinhas de palha e que harmonizou bem com nossas recordações. Rimos e nos emocionamos lembrando de uma época especial. Despedi-me de meus amigos parafraseando um triste, mas conformado cliente do Mansuetto:

“Sabe meu caro amigo, não devemos ficar tristes por ter acabado e, sim, felizes por um dia ter existido”.


*Esta coluna é semanal e atualizada às quintas-feiras.

Leia também