Nos anos 60, tudo chegava aqui devagar. A ditadura militar fechou as fronteiras dificultando ao máximo a importação. A meninada ouvia os Beatles e os Rolling Stones no mínimo seis meses depois que o resto do mundo.
Em 1982 Lulu Santos lançou a música “Tempos Modernos”, no início do movimento que seria chamado de rock Brasil e no fim da ditadura militar.
“Tempos Modernos” tem uma estrofe assim:
Eu vejo um novo começo de era
De gente fina, elegante e sincera
Com habilidade prá dizer mais sim do que não
Foi uma década de mudanças, com o movimento chamado de Diretas Já em 1984 e a eleição em 1989 do primeiro presidente eleito pelo povo desde Jânio Quadros em 1960, antes da ditadura militar: Fernando Collor de Mello… .
Depois de trinta e quatro anos do lançamento de “Tempos Modernos”, era de se esperar que esse novo começo de era já estivesse firmemente instalado, com a vida mais farta e clara, repleta de toda satisfação que se tem direito do firmamento ao chão, e que as pessoas gritassem:
– Vamos viver tudo o que há prá viver, vamos nos permitir!
Mas a sensação é que perdemos uma grande oportunidade. O tempo voa e escorre pelas mãos mesmo sem se sentir, e não há tempo que volte. Desperdiçamos a chance de fazer um grande país, uma nação de gente fina, elegante, sincera, educada. Ficamos perdidos no meio de uma democracia que é baseada na ignorância e na falta de discernimento. Podia ser um lugar onde as pessoas fossem tratadas dignamente quando precisassem de saúde, educação, segurança e que pudessem crer no amor numa boa e realizar a força que tem uma paixão, sem perder o tempo precioso de suas vidas em filas quilométricas tentando resolver seus problemas, parindo nas calçadas crianças com pouca perspectiva de conseguir sobreviver com dignidade.
Tivemos todas as oportunidades de chegar até aqui muito melhor, com menos desigualdade, mais oportunidades para todos, mas optamos pela improvisação e pela crise de competência que grassa por todos os lugares, por todos os poderes. Deixamos, só para citar um pequeno grande exemplo, o Aedes Aegypti, que já estava controlado, voltar com toda a força. E nós, que deveríamos ser gente fina, elegante e sincera, nem sequer limpamos nossos quintais.
Só resta esperar para este novo ano que cada um faça um pouquinho a mais, um pouquinho melhor do que no ano passado. Só resta esperar que cada um melhore o seu mundo, o mundo ao seu redor, para que possamos ver a vida melhor no futuro, ver isso por cima do muro de hipocrisia que insiste em nos rodear…


