
Todos os dias, João fazia o mesmo ritual: levantava às 6h, tomava um bom banho, fazia a barba, preparava seu café forte e preto e saía para o trabalho. Era chefe de repartição da Vigilância Sanitária de sua cidade. Era sempre o primeiro a chegar e o último a sair. Fazia questão de cumprir com todas as suas obrigações, tendo conquistado inclusive o título de funcionário exemplar nos últimos 25 anos. Para ele, estar sempre à disposição era motivo de orgulho. Por isso, fazia questão de manter a mesma rotina. Mas um dia, João não acordou às 6h. Não conseguiu cumprir com seu ritual. Faltou pela primeira vez em quase 26 anos de trabalho. A única ligação que recebeu foi de seu superior que queria saber o motivo dele não ter aparecido. Tinha medo que a entrega dos relatórios fosse prejudicada. E só. Nem um esboço de compaixão ou solidariedade.
João desligou o telefone e voltou a dormir. Um sono pesado. E sonhou. Pela primeira vez, ele viu como era sua vida: solitária, voltada a um trabalho sem graça e sem nenhuma perspectiva, nenhuma vida social, a família toda longe, sem amigos. Na sua excursão inconsciente, João conseguiu enxergar como sua vida terminaria. Estava com 50 anos. Não tinha casado. Não tinha filhos. Não tinha ninguém. Sentiu a cabeça rodar, o estômago revirar. Foi quando acordou chorando. Era um choro doído, de medo. Chorou muito, até voltar a adormecer. Quando acordou no outro dia, João olhou para o espelho e começou a se enxergar de verdade. Ele não estava apenas velho, estava sem cor. Sem vida. Tomou uma decisão: Ele iria se jogar, afinal de contas, não tinha nada a perder. E João fez o mesmo ritual de sempre: tomou um banho demorado, fez uma barba perfeita e tomou seu café preto e forte. Mas diferente do que aconteceu durante os últimos 25 anos, João não pegou o mesmo caminho para o trabalho. Foi numa agência de viagens e comprou uma passagem, apenas de ida, para Barcelona. Queria reencontrar uma velha e querida amiga. Ou melhor, seu primeiro e único amor que há mais de dez anos vivia fora do Brasil. Pediu demissão, fez as malas e partiu. Coração batendo acelerado como há muito não acontecia. Luzia o estava esperando.
No aeroporto, olhos aflitos, mãos suando, pernas tremendo. Foi quando alguém o cutucou pelas costas. Era ela. Continuava do mesmo jeito. Com os mesmos olhos negros e brilhantes que o seduziram desde o início. E desse instante para abraços e beijos incessantes foi um minuto. E foi quando João percebeu que, longe de casa, de tudo o que parecia certo e seguro para ele, finalmente ele estava


