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A morte de Onofre Gosuen não apaga a grandeza de sua história de realizações

Uma breve história de uma liderança nacional que, como deputado estadual, foi cassado pela ditadura

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Onofre Gosuen e o jornalista Cesar Colleti, numa de suas visitas à redação

Onofre Gosuen morreu na sexta-feira, dia 10 de junho, aos 92 anos. 

Deixa muita tristeza no meio político, mas deixa o orgulho de uma biografia que só pode ser escrita pelos destemidos. 

Foi o único político francano que privou das grandes lideranças nacionais, viajou nos mesmos aviões e levantou o público de Norte a Sul do Brasil com seus discursos inflamados.

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Onofre Gosuen tinha ideias, tinha trabalho e brilho próprio. Por isso, há muitos anos faz falta no cenário político francano.

Breve história

Onofre Gosuen carrega uma das mais brilhantes e instigantes histórias políticas de Franca, cidade da qual foi prefeito e a quem representou por duas vezes como deputado estadual, até ser cassado pela ditadura militar por sua firmeza e convicção política.

Tinha apenas 32 anos quando ousou desafiar todas as forças tradicionais da cidade e colocou o seu nome à apreciação dos cerca de 60 mil habitantes francanos.

Concorriam ao pleito de 1955 nomes como Flávio Rocha, João Palermo, Antônio Baldijão e Onofre Gosuen.

Foi uma eleição apertada, mas os resultados finais colocaram o então jovem Gosuen como prefeito de Franca.

Onofre Gosuen tinha suas bases na Estação e lembra que deve sua eleição aos eleitores do bairro.

Durante a apuração do pleito de 1955 ele perdia no centro, mas quando eram abertas as urnas da Estação o seu nome disparava.

“Foi uma eleição difícil, ganhei por poucos votos, mas ganhei por força da tradição da minha família na Estação”, disse ele numa entrevista à revista Enfoque, em dezembro de 2001, recordando que essa dualidade e aparente disputa sempre existiram e foram a força motriz para garantir a expansão de Franca.

Eleito prefeito em 1955, Onofre Gosuen governou em 56, 57 e 58.

Fez grandes transformações em Franca, construiu praças, mudou a praça Nossa Senhora da Conceição.

Cuidou da saúde, do ensino, construiu pontes nas zonas urbana e rural, cuidou da alimentação e do saneamento básico, e valorizou a cultura, espalhando monumentos por todas as praças da cidade.

Onofre Gosuen cumpriu apenas três anos de mandato. Em 1958, Gosuen foi eleito deputado por Franca, com uma expressiva votação.

Seu trabalho foi de transformação, de embelezamento, de mudança das estruturas.

Seu nome tinha a esmagadora maioria da população. Em março de 1959, tomou posse na Assembléia.

Foi então que apareceu um político com dimensão nacional. Gosuen não ficou restrito à Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo.

Fez amizade com grandes políticos nacionais e trabalhou como pôde para o sucesso administrativo de Franca.

Onofre Gosuen cuidou de Franca e de uma vasta região. Conseguiu benefícios e melhoramentos para todas as cidades.

Na Assembléia, trabalhou pela emancipação dos chamados distritos, que se transformaram em município, como Cristais Paulista, Ribeirão Corrente, Restinga e outros.

A expressão do seu trabalho lhe permitiu a reeleição em 1962, para o mandato de 1963 a 1966.

Foi nesse período que apresentou sua melhor performance como político na defesa dos interesses da população que lhe confiou a representatividade em São Paulo e, por vezes, na esfera federal.

Quando Fidel Castro esteve no Brasil, Onofre Gosuen esteve com ele. Fez parte de uma comissão formada pelo governador para receber o revolucionário cubano em São Paulo.

O mesmo aconteceu com a visita de Che Guevara, recebido por Onofre Gosuen junto com uma comissão de parlamentares paulistas.

No período de seu mandato, o deputado francano fez uma viagem à Europa e, dentre os países visitados, esteve na União Soviética.

Era amigo de Juscelino Kubitschek, então presidente da República, que lhe atendia a todos os pedidos, como a autorização para o funcionamento da Faculdade de Direito de Franca.

Onofre Gosuen era um político das massas. Falava como poucos. Na campanha presidencial do Marechal Lott, em 1960, assim como na de João Goulart, que era candidato a vice – naquele tempo as campanhas eram separadas – ele era escalado para precedê-los no discurso.

Livros escritos por jornalistas que cobriram as campanhas destacaram o magnetismo do deputado francano. No Rio Grande do Sul, não queriam que parasse de falar. E comícios naquele tempo atraiam multidões.

Quando aconteceu a renúncia de Jânio Quadros, Gosuen liderou a Frente Parlamentar Nacionalista de apoio ao João Goulart.

Em 1963 era líder da bancada do PTB na Assembléia, quando recebeu de Jango o convite para ser presidente da Comissão Federal de Abastecimento e Preços, mas preferiu continuar deputado.

Veio o golpe de 1964 e Onofre Gosuen continuou o deputado combativo, até que 1966, quando estava perto de completar oito anos como deputado e faltando apenas seis meses para terminar o seu mandato, foi cassado pelo AI 02,  assinado pelo presidente Castelo Branco, no dia 30 de julho de 1966. Sem nenhuma acusação, ficou sem direitos políticos por dez anos.

Só voltou ao cenário depois da anistia, mas os tempos já eram outros.

Se houvesse algo para justificar o ato da ditadura militar, seria a sua recepção a Che Guevara e Fidel Castro e sua visita à União Soviética – defeitos grandes demais para um regime de exceção.

Com isso, Franca perdeu seu deputado e o Brasil perdeu um grande político, dono de uma oratória aclamada por multidões.

Nunca, em tempo algum, será possível reparar a injustiça de uma cassação, que abate em pleno voo um político destemido, amigo de Ruben Paiva – o mais emblemático político brasileiro, ícone dos perseguidos pelo regime militar, desaparecido depois de uma prisão.

O lado cidadão de Onofre Gosuen não acabou: restabelecida a anistia e concedida a indenização aos perseguidos pelo regime político de 1964, o ex-deputado francano talvez tenha sido o único dos punidos e perseguidos que preferiu não reivindicar a pensão a que tinha direito. 

Cesar Colleti

O que acontece e como acontece em Franca e região