Ao ser apresentado ao “Sistema Manero de Medição” (SMM), o Dr. Yamashita, habituado ao rigoroso tratamento científico das questões, ficou desorientado diante da tortuosa estrutura do pensamento manero. O SMM não é indicado para cardíacos ou perfeccionistas. Compreende um versátil conjunto de palavras utilizado como unidade de medida para tempo, distância, peso, massa, volume etc, adaptável aos campos da física, química, astronomia, música, etc. As mais conhecidas são: “pra cachorro, muito, pouco, um tantão, um tanto, mais ou menos, perto, longe, pouco, poquim, tiquim, cadiquim” etc. Curioso é que o “manero sistema” serve para coisas reais (um tiquim de cimento, um poquim de cal e um ticão de água) e para as impalpáveis (gosto daquela “mina pra cachorro”).
Essa “dissência” (modo de dizer) é um bom símbolo da “alma manera”, daquele jeito de ser, sem querer ser, sendo (?!). Um dizer, desdizendo. Um mostrar escondendo, ou um esconder mostrando. Um falar, “desfalando”. Aquele “ir sem for”. Lembra políticos mineiros. Influente em Franca, passou um “tantim” para os nossos artistas e está presente (até por lúcida escolha) no cambiante e no “chiaro oscuro” da fotografia, da música e da pintura do Dr. Rodolfo Chiaverini.
Unidade mais interessantes do SMM é o “ali de beiço”, indicativo de lugar ou de distância. Manifesta-se ao indicar que algo está em tal lugar, assim: “-ali, oh!” espichando-se o lábio inferior na direção desejada. Quanto à distância, o jeito de dizer é o mesmo: “a fazenda dos Figueiredo é ali” e espicha-se o beiço em uma direção. Mas o “ali de beiço” é de sofisticação inalcançável pelos neófitos. Se não prestar atenção ao tamanho do beiço, interpreta-se erroneamente o “tanto” da distância, porque existe o “beiço de pertim, de longim e de lonjão”. O SMM é tão complexo que ao conhecê-lo o Dr. Francisco Villaron, paulista de Salto (“Sarto”, aos íntimos), manifestou sua perplexidade de modo maneramente lapidar.
− “Na maioria das vezes, um pepino é um pepino; e não sou contra nem a favor, muito pelo contrário !?”.
*Esta coluna é semanal e atualizada às quintas-feiras.



