Medo, trauma e insegurança ocupam o lugar de inocência, amor e proteção. Essa é a realidade enfrentada por crianças e adolescentes que constam nas estatísticas trágicas de vítimas de crimes contra a dignidade sexual. Os números cresceram substancialmente no Distrito Federal neste ano. Dados obtidos via Lei de Acesso à Informação pelo Correio mostram que, no primeiro semestre, houve aumento de 29,6% desses crimes contra menores de 18 anos, comparado ao mesmo período de 2019 — passando de 246 para 319. Documentos revelam o crescimento de ocorrências de violência sexual em todos os quatro grupos de faixas etárias analisados, até os 17 anos. Entre vítimas de até cinco anos, por exemplo, observou-se 57 registros nos primeiros seis meses deste ano, 137% a mais em paralelo ao mesmo recorte de tempo do ano passado.
A faixa etária com maior número de casos foi o grupo de 12 a 15 anos, com 113 vítimas. Janaína (nome fictício), 13 anos, é uma delas. Criança cheia de vida e alegre, que amava brincar e sonhava em ser professora, teve que deixar os brinquedos de lado para encarar a realidade de ser mãe. Janaína foi estuprada por um homem de 57 anos, violência que mudou para sempre a vida dela. Por motivos religiosos, a família decidiu que a criança teria o filho. Além de uma gravidez indesejada, Janaína perdeu a vontade de sair com os amigos e de brincar. “É uma criança cuidando de outra. Ela passou por uma situação bem complicada. Assumiu toda a responsabilidade de mãe e abdicou da infância. Hoje, a rotina dela é totalmente voltada para cuidar do filho”, conta o pai da vítima, 35.
O abuso aconteceu onde a mãe da menina trabalhava, praticado pelo patrão. Ela era cozinheira e levava a menina ao restaurante para não deixá-la sozinha em casa. Em depoimento, à época, a responsável declarou que o homem considerava a filha dela como uma neta. “Ele oferecia presentes e era prestativo. Ao término da relação de trabalho, ele continuava a visitar a família alegando querer notícias da minha filha”, lembra a mãe de Janaína, 42. Depois de um tempo, a garota começou a agir de forma estranha e, ao notar que o ciclo menstrual da filha estava atrasado, a mãe desconfiou de uma possível gravidez. Em conversa com a criança, ela descobriu que o agressor a obrigou manter relações sexuais com ele, sob ameaça de colocar ela e a irmã, de 9 anos, em um abrigo, longe dos pais.
“Desde então, ela (Janaina) começou a agir de maneira introspectiva, cada vez mais distante e triste. Não sai de casa para nada e não quer voltar a estudar. Ela nunca mais voltou a ser a mesma”, lamenta o pai. O caso é investigado pela 26ª Delegacia de Polícia (Samambaia). “O suspeito está foragido, por força de mandado de prisão preventiva expedido pela Segunda Vara Criminal de Samambaia. Não há atualização sobre o caso até o momento”, informou a Divisão de Comunicação da Polícia Civil (Divicom), em nota oficial.




