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POESIA A UMA DEUSA

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Tu
és o quelso do pental ganírio

Saltando
as grimpas do fermim calério,

Carpindo
as taipas do furor salírio

Nos
rúbios calos do pijom sidério.

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És
o bartólio do bocal empírio

Que
ruge e passa no festim sitério,

Em
ticoteios de partano estírio,

Rompendo
as gâmbias do hortomogenério.

Teus
lindos olhos que têm barlacantes

São
camençúrias que carquejam lantes

Nas
duras pélias do pegal balônio…

São
carmentórios de um carce metálio,

De
lúrias peles em que pulsa obálio

Em
vertimbáceas do pental perônio.

   
Revendo lições de métrica e rima, encontrei os versos acima, atribuídos ao
poeta maranhense Luís Lisboa.  O soneto é um exemplo de perfeito enquadramento
na metrificação e nas rimas consoantes que apresenta. Apesar disso, não é
poesia e muitas das palavras utilizadas não constam em nenhum vocabulário da
língua portuguesa. Por outro lado, vivemos hoje o tempo de total desrespeito –
e ignorância – a consagrados preceitos da composição poética. É moda chamar-se
“poesia” a qualquer amontoado de palavras, ainda que muito mal arrumado. O que
leva a parafrasear o poeta Paulo Leminski: “chegou o dia em que se diz que
tudo é poesia…”. Ou seja, o lado modernoso de “poetas” que
sepultou Modernismo, Romantismo, Parnasianismo, Simbolismo… Perpetrar
versinhos, cometer poemetos e praticar a incultura contra a “…a última
flor do Lácio
” é o que mais acontece!

  
Nem a cega obediência ao rigor dos manuais, que leva a construções como a
desenvolvida satiricamente por Luís Lisboa, nem o desleixo total que apelida
poesia a qualquer meia dúzia de palavras emendadas, aconselham os estudiosos.
Nem o rigor estético, nem o liberalismo rebelde de Victor Hugo: “Ni règles,
ni modèles
”. A propósito, ao ouvir que certo verso tinha pé quebrado,
Emílio de Menezes retrucou que “Os bons versos não têm pés… têm asas!”

  
Isso é discussão infindável e as regras – ou sua ausência – mudam como o vento,
ao sabor do tempo. Entendo que pensamento e estilo devem estar juntos com
transparência e timbre. A perfeição plástica, o lapidar paciente do
parnasianismo, a escolha de temas, a beleza das linhas, dos volumes, do
colorido –mesmo sem a opulência ou o pitoresco do vocabulário ou das rimas…
O que importa sobremaneira é a cadência, a melodia, a música do verso. Para
muitos, predominam as sensações visuais (os apreciadores de Vitor Hugo, por
exemplo), ou as olfativas (apreciadores de Baudelaire). Para mim, à audição
cabe a supremacia sobre os outros sentidos: as ondas sonoras que trazem as
revelações.   Para mim, tem que haver música, a melodia cantada pela
musicalidade das palavras, a harmonia das rimas ricas e sem dissonâncias, o
ritmo ditado pela métrica; e mensagem com um mínimo de conteúdo.  Não
rigorosa e necessariamente assim. Mas, também, mais que o choramingar
lacrimoso.

Escrita em 2004. Revisão
em out.2016

*Esta coluna é semanal e atualizada às quintas-feiras.

Cesar Colleti

O que acontece e como acontece em Franca e região