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Para Sempre…

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Se ele ainda recordasse ainda uma canção, certamente cantaria agora, tão contente estava. Ao invés disso, velhas notas que ele sequer recordava a quem pertenciam. Não tivera qualquer pressa ao se barbear, aliás, quando os dias se esvaem sem que se possa acompanha-los, se descobre que a eternidade nunca é demasiada longa, nos momentos em que se retoca o próprio ser. Conferira duas vezes os lóbulos, onde costumava esquecer resquícios de espuma de barbear. Deslizara o pente por entre os fios ralos, dos cabelos que um dia foram negros, mas que agora, se assemelhavam a chumaços de algodão colados em tufos no crânio. A imagem refletida no espelho até que não lhe desanimara de todo. É óbvio que sua tez pálida e maculada por sinais da idade lhe emprestava um aspecto frágil, mas, sentia-se jovem. Girara a aliança pelos nós do dedo, que mais parecia graveto seco, onde uma veia azulada se destacava. Sem cessar o assovio, espanara o terno, no qual, todo ano ele temia não caber mais. E para requintar ainda mais sua figura elegante, atara uma flor na lapela. Somente ao sair decidira-se pela bengala e chapéu coco. Seus passos eram lentos, porém vigorosos. Na rua, sua figura se assemelhava à uma versão envelhecida do próprio Don Lockwood, em “Cantando na chuva”. No caminho, dedicara todos os seus pensamentos à sua amada. Sua eterna namorada. Foi quando lhe ocorrera comprar flores, afinal, foi justamente avalizado por flores que ele a conquistara. E sua alma transbordara ao recordar aquele dia, que já não era mais tão claro em suas lembranças. Se lembrara do quanto ela estava linda naquele dia, e como coraram as maçãs de seu rosto, quando trêmulo de emoção ele lhe empurrara as flores, se desculpando pela falta de jeito.

            -Uma flor por um beijo. –Dissera ele da forma mais patética e atrevida, antes de sentir o calor dos lábios dela umedecerem os seus. Pássaros gorjeavam nas árvores e um mundo colorido explodira, pintado especialmente para aquela ocasião.

             Permitira-se caçoar de suas próprias pernas, que fraquejavam sempre que a esperava, como há cinquenta anos atrás, no altar. Não era o pai dela que a conduzia agora, por entre um cenário verdejante. Era uma jovem enfermeira, que sussurrara algo ao ouvido de sua amada, antes de ambas sorrirem.

            O tempo vinha sendo impiedoso com ela. Sua pele toda se assemelhava a papelão amarrotado, os longos cabelos negros de outrora perderam volume e cor. Eram agora folhas morrendo ressecadas numa árvore amarrotada. Porém, ela claramente ignorava a ruina de seu corpo com um sorriso, fraco, mas, constante. Seu perfume não era mais tão adocicado e sedutor, mas, ele ainda adorava aspirar sua presença. Olhos que se conheciam bem e já compartilharam inúmeras situações, se encontraram. Seres humanos emoldurados pelo tempo. Logo uma expressão encabulada vestira o rosto de sua simpática amada. Seria o nó da gravata outra vez? Será que engordara muito? E naquele doloroso momento ele implorou intimamente para que fosse qualquer destas opções.

            -Quem é o senhor? – E sua voz saíra simpática e fraca. Mais um sussurro, lutando contra as limitações vocais.

            Ele sentira uma lágrima quente ondular pela superfície de seu rosto. A enfermeira lhe emprestara uma expressão entre constrangida e solidária, ao que ele respondera com o mesmo sorrisinho de “tudo bem”, como nos anos anteriores.

            -É difícil. Ela não se lembra mais. –Tentou a enfermeira.

            -Mas, eu me lembro muito bem dela. É o que importa.

*Essa coluna é semanal e atualizada às quartas-feiras.