“Um dia depois que minha mãe morreu, foi me entregue uma carta em que ela me pedia várias coisas”, lembra a professora Vera Eunice Jesus Lima, que é filha da escritora Carolina Maria de Jesus e dedica sua vida à preservação do legado e memória da mãe.
“Entre elas, pediu que eu cuidasse do acervo dela e que fosse atrás dos cadernos que deu para outras pessoas.”
Publicada em 40 países, Carolina Maria de Jesus é um dos principais nomes da literatura e cultura brasileiras.
Célebre moradora da favela do Canindé, em São Paulo, depois de ter trabalhado em Franca, é dona de uma vasta obra em que traz suas perspectivas, enquanto mulher preta e periférica, sobre o cotidiano e a realidade brasileira – um dos pilares de seu principal livro, o diário Quarto de Despejo (ed. Ática, R$ 45, 200 págs.), lançado em 1960.
Má conservação
No entanto, escritos inéditos podem ter dificuldade para ser publicados: muitos manuscritos da autora estão degradados e têm se perdido devido à má conservação de parte de seu arquivo, que está em Sacramento, Minas Gerais, sua cidade natal.
Mantidas em uma sala sem climatização e fiscalização própria, várias páginas de seus cadernos estão tomadas por rasgos, proliferação de fungos, cortes, manchas e trechos molhados.
“Iniciei a pesquisa nos arquivos em 2001, quando passei a ler a Carolina dos manuscritos e datiloscritos. Há textos que li que hoje são ilegíveis”, diz a pesquisadora Raffaella Fernandez, que estuda a obra de Carolina há mais de 20 anos e faz parte do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (USP).
“Alguns textos não tem uma completude de publicação, o que revela o impacto da falta de catalogação e conservação correta de seu armazenamento”, diz Raffaella Fernandez.
Resíduos
Em 2019, a pesquisadora expôs o estado de desintegração do acervo no livro A poética de resíduos de Carolina de Jesus (ed. Aetia Editorial, R$ 111, 346 pgs.).
“São cadernos que já foram retirados do lixo e reaproveitados, porque Carolina não tinha dinheiro para comprá-los. Então, já estavam em situação de putrefação ou fragmentados”, contextualiza Rafaella.
Ela continua: “Essa materialidade demonstra um dos aspectos dessa poética de resíduos, tanto na materialidade quanto na maneira como a escritora reaproveitava diversas formas de discursos literários e não-literários”.
Hoje, o conteúdo de Carolina está ainda mais disperso. “Há partes de romances ilegíveis ou inacabadas. Quanto mais tempo passa sem preservação, menos temos condições de ler a obra na íntegra. A construção de um Fundo Carolina é mais do que urgente”.
Material desapareceu
Além da falta de climatização, Vera Eunice diz já ter visto rachaduras, umidade e mofo nas paredes do espaço, além de pó nas prateleiras. Conta ainda que parte do material sumiu: “Deixei muitas fotos lá e hoje tem pouquíssimas. Se perdeu quase tudo”, lamenta.
O interesse de Vera Eunice é que o material receba o tratamento e restauração adequados e possa ser visto por fãs da escritora.
A situação do arquivo foi denunciada em abril pelo portal Nós, Mulheres da Periferia, mas Vera Eunice conta que faz mais de duas décadas que tenta resgatar o arquivo da mãe que está em Sacramento, justamente pela forma como está guardado.
Em Sacramento
O material foi doado à cidade em 1999 e entregue ao então vereador Carlos Alberto Cerchi – que, entre 2017 e 2020, foi secretário da Cultura.
“Quando recebi os cadernos, estavam guardados em uma caixa de papelão e vi que já estavam desmanchando. Como fui bem tratada em Sacramento, cedi e deixei o material lá. Afinal, foi onde ela nasceu. Do jeito que eu recebi, entreguei”, recorda Vera Eunice.
Menos de cinco anos depois, retornou à cidade e viu que o material estava do mesmo jeito: em uma caixa de papelão, debaixo de uma prateleira.
O local onde as obras de Carolina estão há pelo menos 15 anos costumava ser a cela de um antigo presídio, o que também gera controvérsias.
Mudança de lugar
Foi ali, onde funciona o Arquivo Público Municipal – Cônego Hermógenes Cassimiro de Araújo Brunswik, que Carolina Maria de Jesus e sua mãe foram presas e espancadas por policiais, após a escritora ser falsamente acusada de roubar dinheiro de um frei e de bruxaria por ler uma bíblia atribuída à São Cipriano.
Segundo uma reportagem da revista Marie Claire, Vera Eunice quer ceder o acervo a outras instituições que podem conservá-lo corretamente. Entre elas, o Instituto Moreira Salles (IMS), a Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro – que guardam parte do acervo de Carolina, armazenado corretamente –, e o Museu Afro Brasil, em São Paulo – que preserva o exemplar de Quarto de Despejo escrito em papéis de pão.



