Pouco
antes de ser assassinada no Rio de Janeiro, a vereadora Marielle Franco
participou de uma roda de conversa na região da Lapa, que lembrou símbolos
importantes da luta das mulheres negras no Brasil, entre eles a escritora
Carolina Maria de Jesus, que viveu em Franca, saudada pelas participantes com
uma salva de palmas.
No
evento chamado “Jovens Negras Movendo as Estruturas”, Marielle falou
sobre a própria chegada à faculdade de ciências sociais da PUC em 2002, e como
ela e outras colegas começaram a traçar os caminhos para abordagem da inclusão
da mulher negra e favelada no universo do ensino superior. Citou nomes inspiradores
em sua trajetória e se admirou ao se lembrar de Carolina de Jesus.
Carolina nasceu em Sacramento (MG), mas passou parte da adolescência em
Franca, onde trabalhou como empregada doméstica e lavradora. Depois voltou para
a cidade natal e conseguiu frequentar a escola por apenas dois anos.
No final dos anos 1930, com a morte dos pais, Carolina decidiu deixar o
interior de Minas Gerais. Começou uma peregrinação a pé até a capital paulista,
onde escreveu as páginas mais notáveis da sua história.
Pelo caminho passou por várias cidades da região de Ribeirão Preto.
Sobreviveu catando papelão e chegou a morar de favor na casa de parentes. O
reconhecimento à história e à obra veio após sua morte, quando deu nome a uma
rua da periferia de Ribeirão Preto.
Em São Paulo, Carolina teve três filhos, mas nunca se casou. Morava em
um barraco na favela do Canindé e traduzia a rotina em palavras. “Hoje não
temos nada pra comer. Olhei meus filhos e fiquei com dó. Eles estão cheios de
vida e quem vive precisa comer. Fiquei nervosa pensando: será que Deus
esqueceu-me? Será que ele ficou de mal comigo?”, escreve em um dos
trechos.
A estudante de jornalismo Gabriela Buranelli, admiradora da obra da escritora,
diz que o que mais chama atenção é o fato de que mesmo apesar das dificuldades,
ela se interessou pela leitura e fez disso sua principal voz. “Quando ela
morava na favela, ela era catadora de lixo e pegava livros que ela encontrava
no lixo e levava para casa. A base que ela teve lá em Sacramento, com dois anos
de estudo, foram suficientes para que depois ela continuasse nessa persistência
de ler e escrever. Todos os dias ela escrevia.”
As páginas do diário que ela escreveu foram descobertas por um
jornalista e viraram livro. A obra ‘Quarto de Despejo’ foi traduzida em 14
idiomas e vendeu mais de 70 mil exemplares. “O livro foi lançado em 1960, mas
hoje, em 2018, é totalmente atual o conteúdo. Ela abordava a questão da fome,
nós temos a pobreza, a favela e principalmente a corrupção. Ela ficava
indignada com a política”, diz Gabriela.
Carolina de Jesus escreveu ainda outros quatro livros. Ganhou
notoriedade, mas morreu pobre, aos 62 anos.



