sexta-feira, 19 jun 2026 ☀ Franca/SP 16°C
DólarR$ 5,18▲ 0,0%
EuroR$ 5,98▲ 0,0%
Selic14,50%▲ 0,0%
BitcoinR$ 326 mil▲ 0,0%

Na contramão das cervejas industriais, quem ganha espaço são as artesanais

Mercado de cerveja está em fermentação, com as micros produzindo de 60 a 2500 litros

Compartilhar

Maurício já produz dez receitas diferentes

Chamá-la de loura é ignorar sua versatilidade. Cada vez mais morena, turva, ruiva, com notas que vão do chocolate, mel ao capim-limão, a cerveja artesanal conquista, gole a gole, o paladar brasileiro. E o francano, que adora uma novidade, tem se tornado um grande apreciador da bebida, atraindo com isso, novos investidores na área. É o caso do sushiman e empresário Maurício Arruda, que sempre foi um apreciador de cervejas artesanais, até que em 2008 procurou um curso que se encaixava em seu perfil e não parou mais. “Comecei a desenvolver minhas próprias receitas e hoje faço 10 receitas elaboradas por mim”, diz.

Apesar de ter uma produção ainda pequena – 30 litros por brassagem, que é o cozimento do malte para extrair os açúcares necessários à fermentação da cerveja, por dia, Maurício costuma fazer duas brassagens por semana e de suas 10 receitas, quatro têm bastante saída: a Weiss – 100% trigo, uma cerveja turva, mas não muito lupada e super encorpada, IPA – tipo americana, com quatro tipos de maltes diferentes e três tipos de lúpulo. Sua característica e sabor são sua cor avermelhada. “Ela é super elaborada, pois trabalho com vários tipos de temperatura em sua fabricação”, explica Maurício, acrescentando que a Porter – escura, cerveja com o gosto acentuado para o café e com espuma branca e espessa também é uma das mais pedidas. Nela, ele acrescenta aveia em seu processo. A Pilsen, a mais popular, também está entre as preferidas. “Seu processo é complexo, pois a fermentação e maturação são de baixa temperatura, exigindo atenção especial”, diz. Sem ainda definir um nome para sua cerveja, Maurício diz que avalia possibilidade de chamá-la de Taiko Beer. 

De hobby a investimento

Continua depois da publicidade

Luiz Henrique começou como hobby, mas agora ele e o irmão vão profissionalizar a produção

​Para ser considerada uma microcervejaria, a empresa deve produzir até 200 mil litros por mês, segundo a definição da Escola Superior de Cerveja e Malte. Em geral, os produtores de cervejas artesanais não alcançam esse número, mas isso não tem impedido o ritmo de crescimento nos últimos anos. As cervejas especiais representavam 8% do mercado nacional de bebida em 2012 e encerraram 2014 com uma participação de 11%, segundo o Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja, que aponta a existência de 300 microcervejarias no país. E a projeção é de que essa cota suba para 20% em 2020. “Alguns fatores contribuíram para o crescimento das cervejas artesanais, como a chegada de produtos importados, a abertura de novas microcervejarias, a criação de cursos específicos, além da qualidade e o prazer de beber uma boa cerveja”, diz Luiz Henrique Cruz, cervejeiro e proprietário da Portubeer.

O interesse dele por este universo começou em 2010, e junto de seu irmão começou a produzir cerveja por hobby. No decorrer do tempo, aumentaram a produção e graças à boa aceitação, este ano montaram a cervejaria. Durante esse processo, Luiz Henrique fez vários cursos – desde os básicos para produção caseira, produção em larga escala até sommelier de cervejas. O resultado disso é que hoje ele tem muitas receitas. “Para cada estilo que produzimos, colocamos um nome, tudo na brincadeira mesmo. Tem a Dubbel Floresta das Trevas, Jagunço Ipa, Saison Farm House Rural, e esta última em especial, deu origem ao nome da cervejaria, que será ‘Cervejaria Rural”, diz.

Produzindo 60 litros de cerveja por semana, Luiz Henrique conta com 12 estilos diferentes, mas adianta que a ideia é produzir apenas quatro em larga escala e ir aumentando com o tempo. “Com o novo equipamento já começaremos a produzir cerca de 500 litros por dia, isso a cada 15 dias, inicialmente”, diz.

Aposta no setor

Leonardo explica que a Maniero produz 2,5 mil litros do chope Bratz por semana

​Trabalhando com bebidas desde 1948, e acompanhando o mercado de cerveja nos EUA, a Bebidas Maniero percebeu o crescimento de microcervejarias e decidiu, em 2007, investir nesse nicho. “Foram dois anos para instalação dos maquinários até chegarmos à receita atual do Chopp Bratz”, observa o responsável pelo departamento comercial, Leonardo Ottoni Maniero. Ele explica que a diferença é que ele não é pasteurizado, sendo assim, a levedura permanece viva, o que o torna rico em vitaminas do Complexo B, neutralizando eventuais indisposições estomacais. Além disso, não possui conservantes. Enquanto isso, o chope tradicional é composto por água, malte, cereais não malteados, acidulante e antioxidantes, onde se faz necessária a pasteurização, que é o processo que mata a levedura, fazendo com que o sabor se perca e a espuma fique rala e pouco duradoura.

O chope Bratz possui duas versões: o Pilsen e o Trigo. O primeiro é produzido com água, malte, fermento e lúpulo, sendo o fermento e o lúpulo importados da Alemanha. O resultado é um chope encorpado com sabor e aroma autênticos e espuma vigorosa e cremosa, rico em vitaminas do Complexo B e com graduação alcoólica de 4,8%vol. Já o chope de trigo é produzido com três tipos de malte, dois deles importados da Alemanha e dois tipos de lúpulo, também da Alemanha, além de fermento importado da Áustria. “É um chope amarelo-ouro, turvo, pela presença de fermento, espuma forte e consistente, encorpado e com aroma de especiarias, além de graduação alcoólica de 5,4% vol”, diz.

Com uma produção semanal de 2,5 mil litros do chope Bratz, a Maniero comemora a aposta no segmento artesanal. A procura tem sido tão boa que a empresa está investindo na montagem de uma linha de envase para seis tipos de cervejas com as marcas Bratz, Lünd e Diablo Rosso.

O setor em números

Com 13,5 bilhões de litros ao ano, o Brasil é o 3º do mundo em produção de cerveja, atrás de EUA e China. O setor corresponde a 2% do PIB, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria da Cerveja. A bebida é preferida por 64% dos brasileiros, à frente de espumante – 12%; vinho – 5% e destilado – 3%. Dessa forma, o Brasil ocupa a 25ª colocação no ranking mundial de consumo de cerveja, especialmente as pilsens, produzidas em alta escala pelas empresas do setor. Com produção anual de 70 milhões de litros, a versão artesanal da bebida conquista novos apreciadores, reflexo da tendência internacional.

Há um ano à frente do Villarejo do Monjolo, Rômulo já oferece 15 tipos diferentes

​Servida em rótulos pomposos, que mais parecem de vinho, as marcas e o alcance de sua distribuição aumentam a cada ano. Nessa onda, em Franca aumenta o número de estabelecimentos que oferecem a bebida. Um deles é o Villarejo do Monjolo, que trabalha com as melhores cervejas nacionais e importadas, desde a Jupiter, Invicta, Colorado, Bodebrown, Saint Bier a Chimay, De Ranke, Tripouteur, Stillwater Evil Twin a La Trappe. “Atendemos a todos os gostos, por isso trabalhamos com um pouco de cada tipo de cerveja – hoje são 15, mas os mais comuns são IPA, APA, Weiss, HefeWeizen, Trapistas, Stout, Porter e Larger”, diz o casal Ana Cláudia e Rômulo Tomaz David.

O perfil desses novos clientes constitui-se na maioria das vezes de pessoas que estão se acostumando a beber as cervejas gourmet. “A maioria já chega sabendo o que quer beber, outra parte quer degustar em razão de nossa publicidade e acaba amando, entrando para o mundo da cerveja artesanal”, diz o casal, que explica que as principais diferenças entre as cervejas gourmet e as tradicionais são os ingredientes. “São usados lúpulos, maltes e leveduras importados e, em alguns casos, ingredientes exóticos, portanto, a qualidade é indiscutivelmente superior”.

O resultado é que, diferente das cervejas convencionais, as especiais contam com sabores mais acentuados e frequentemente com graduação alcoólica maior. E como são diferentes, até a formar de servir é especial. “Existem copos apropriados para cada estilo. Por isso, trocamos o copo toda vez que é solicitada uma cerveja diferente, para manter o sabor e paladar de cada estilo, pois assim é mais prazerosa a degustação de cervejas artesanais”, reforçam Ana Cláudia e Rômulo.

Cesar Colleti

O que acontece e como acontece em Franca e região