Nas páginas de O mercador de Veneza, Antonio
descreve seu estado de espírito de forma melancólica: “Não sei porque estou
triste. Ela me cansa, como cansa você. Do que é feita ou do que terá nascido,
eu vou aprender”. Formulada há mais de quatro séculos, a indagação de um dos
personagens criados por William Shakespeare ainda descreve de forma eficaz os
mistérios que circundam a depressão.
O número de casos da doença tem aumentado
mundialmente, desencadeando problemas mais graves, como o suicídio, o que torna
urgente a compreensão de sua origem. Mas, aos poucos, cientistas começam a
desvendar esse enigma. Uma das constatações revela que há um trabalho longo a
ser percorrido é a de que a depressão não ocorre por desequilíbrios neurais
específicos, mas por uma série de mecanismos que envolve diferentes partes do
organismo humano.
Geralmente, o estresse é o primeiro ponto a ser
lembrado nas discussões, mas isso não é suficiente para explicar o transtorno.
“Ele é um grande risco para a depressão, sabemos disso sem sombra de
dúvidas. Mas como o estresse causa depressão? Tudo indica que isso ocorre por
meio da inflamação”, explicou Edward Bullmore, autor do livro The inflamed
mind: A radical new approach to depression (Em tradução livre, A mente
inflamada: Uma nova abordagem radical sobre a depressão) e professor de
psiquiatria na Universidade de Cambridge, no Reino Unido.
Desde 1989, Bullmore pesquisa sobre a relação da
inflamação com o transtorno psiquiátrico. Em seus trabalhos, analisou dados de
pacientes com depressão e percebeu níveis altos de inflamação no cérebro.
“O estresse causa uma resposta inflamatória no corpo de animais e em
humanos, como se o sistema imunológico estivesse preparando o corpo para
responder a uma ameaça à sua sobrevivência”, detalhou.




