Um bico de luz pendurado range no fio; no quarto de tábuas, a sombra vence. A água, escura e espessa, esfrega o barranco e traz cheiro de sabão barato e gasolina.
No fogão, a panela cobra resposta e só devolve um bafo ralo. A mão que empurrou o carrinho de papel o dia inteiro abre, agora, um caderno costurado com linha grossa, salvo do lixo.
Carolina escreve para deter o dia antes da perda; mede as frases com a mesma urgência com que mede o arroz. Os filhos respiram pesados no colchão fino. O bairro apaga; dentro do caderno, uma cidade acende.
Carolina Maria de Jesus nasceu em Sacramento, Minas Gerais, em 14 de março de 1914. No quintal de terra batida, as vozes dos mais velhos rondavam o fogão de lenha; na escola, o Colégio Espírita Allan Kardec coube por poucos meses, suficientes para acender a febre da leitura.




