“MÚSICAS…”

“DESAFINADO”: a coisa mais estranha a aparecer na música brasileira até fevereiro de 1959. “Estranha, muito estranha”. Assim soava a canção aos ouvidos da maioria das pessoas. Já mostrava tudo o que a bossa nova oferecia de inovação e revolucionário: o canto intimista, a letra sintética, despojada, o emprego de acordes alterados e, sobretudo, um extraordinário jogo rítmico entre o violão, a bateria e a voz do cantor. Responsável por esse jogo rítmico, seu intérprete, João Gilberto, assumia assim de imediato um papel destacado no trio que seria completado pelo compositor Tom Jobim e pelo poeta Vinícius de Moraes. Em conjunto, criando a bossa nova, alterariam de forma irreversível o curso da música popular no Brasil. Certamente, apenas com Tom e Vinícius, teríamos uma música moderna, sofisticada, renovadora, mas não seria o que se denominou bossa nova. A melodia de “Desafinado” que ficou consagrada é bastante “torta”. Mas era mais “torta” ainda no original. Ficaram por conta de João Gilberto algumas alterações na hora da gravação. O uso de muitos sustenidos e bemóis produziram intervalos melódicos inusitados para os padrões da música brasileira na época a ponto de dificultar a interpretação de alguns cantores menos dotados. E isso levou muita gente a classificar João Gilberto como cantor desafinado. A batida deslocada do violão e o contratempo da percussão confundiam os músicos, provocando estupefação geral. Tanta novidade numa só composição a levaria inevitavelmente ao sucesso, estendido para além fronteiras. Nos Estados Unidos Stan Getz e Charlie Byrd gravaram , em 1962, um “single” (nosso compacto simples, na época) que ultrapassou a marca de um milhão de cópias vendidas, recebendo o prêmio Grammy de melhor performance de jazz. O disco foi extraído do álbum “Jazz Samba”, que permaneceu setenta semanas nas paradas de sucesso americanas, ultrapassando também a marca de um milhão de cópias vendidas. Esta gravação é considerada o marco inicial da bossa nova nos Estados Unidos.




