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Nicotina pode levar ao vício em álcool, aponta pesquisa americana

Jovens expostos regularmente à nicotina ficam mais propensos a ingerir bebidas alcóolicas em excesso

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Combinadas, a dependência em nicotina
e a em álcool podem comprometer o funcionamento do sistema cardiovascular,
aumentar a vulnerabilidade a cânceres e a ocorrência de inflamações, entre
outros malefícios.

Um estudo americano traz outro dado
que torna esse arranjo de drogas ainda mais preocupantes. Em experimentos com
ratos, cientistas identificaram que jovens expostos regularmente à nicotina
ficam mais propensos a ingerir bebidas alcoólicas em excesso.

Uma mudança em mecanismos cerebrais
explica o hábito, segundo artigo divulgado recentemente na revista Cell
Reports. “Estudos epidemiológicos em humanos inspiraram o nosso trabalho. Esses
estudos indicam que a exposição à nicotina durante a adolescência leva à maior
probabilidade de abuso de álcool, mas as razões e os mecanismos não eram
conhecidos. Os estudos em animais ajudaram a responder como e por que a
nicotina e o álcool estão ligados, e essas respostas que encontramos são
subjacentes ao potencial de avanços terapêuticos”, conta John Dani, principal
autor do estudo e pesquisador da Universidade da Pensilvânia.

No experimento, os pesquisadores administraram
nicotina, por meio de injeções diárias, em ratos adolescentes e adultos. As
cobaias tinham à disposição uma alavanca que, ao ser acionada, liberava uma
bebida alcoólica levemente adocicada. Ao longo do experimento, os roedores
adolescentes passaram a empurrar a alavanca com mais frequência, registrando
maior ingestão diária de etanol, quando comparados aos animais do grupo de
controle (que não foram expostos à nicotina) e os adultos.

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John Dani conta que eles descobriram
que, nos ratos jovens, o contato com a nicotina alterou a função inibitória do
circuito mesencefálico, que é mediado pelo neurotransmissor Gaba. “Mostramos
que algumas conexões específicas do circuito inibitórios se tornam menos
inibitórias ao álcool, se tornando conexões excitatórias, devido a
 alterações em sinais específicos de Gaba”, detalha o cientista.

Segundo a equipe, essas alterações neuronais
ocorrem a longo prazo e foram causadas por um decréscimo na função de um
transportador de cloreto denominado KCC2, localizado em neurônios do
mesencéfalo. Esse pode ser o caminho para conter a dependência. “A boa notícia
— e mais importante — é que encontramos uma molécula crítica, a KCC2, que é um
transportador de íons que regula a excitabilidade neuronal. Esse transportador
pode ser um alvo para terapias destinadas a ajudar bebedores abusivos a diminuir
o uso da bebida”, diz John Dani.

A partir da descoberta da ação da CKCC2, os
cientistas pretendem também entender melhor a relação entre o cigarro e outras
drogas, como a cocaína e a morfina. “Será que as mudanças nos centros de
recompensa induzidas pela nicotina aumentam a probabilidade de o adolescente
usar outras drogas que causam dependência?”, adianta o autor do estudo.

Eletrônicos

Hudson Mourão, neurologista do
Hospital Anchieta, em Brasília, ressalta que há estudos mostrando que o contato
com a poluição e metais pesados pode levar a vícios. O médico acredita que o
trabalho americano é o primeiro a mostrar essa relação entre nicotina e álcool.
“Embora isso não esteja no estudo, acreditamos que filhos de pais fumantes
podem ter maior predisposição ao consumo de bebida alcoólica também, o que
entra em concordância com os resultados”, complementa.

Para o médico, caso a pesquisa americana evolua,
ela poderá ter impactos expressivos na saúde pública. “Ainda é um estudo
inicial, precisa ser mais aprofundado para que outras vias possam ser
descobertas, mas, caso isso se confirme com humanos, poderá, por exemplo,
incentivar políticas públicas para a proibição do consumo de cigarro
em áreas públicas. Se sabemos que a nicotina pode gerar danos desse porte em
adolescentes, essa exposição precisa ser evitada”, ilustra.

John Dani acredita que os resultados também chamam
a atenção para a necessidade de se discutir o aumento do uso de nicotina por
alunos do ensino médio em razão dos cigarros eletrônicos. “Sabemos, por meio da
epidemiologia, que os adolescentes que usam nicotina a partir de e-cigarros são
mais propensos a progredir para cigarros regulares e também usar outras
drogas que causam dependência”, justifica. “Nossa pesquisa mostra a ligação
mecanicista entre o uso de nicotina na adolescência e o potencial para maior
uso de álcool. Esses resultados são muito sérios, porque muitas pessoas não
percebem que os e-cigarros são perigosos e não apropriados para os jovens. Esse
mesmo mecanismo, visto na pesquisa com ratos, muito provavelmente também se
aplica aos seres humanos.”

Cesar Colleti

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