Ser diagnosticado com hipertensão
antes dos 40 anos é uma condição que deixa o indivíduo vulnerável a
complicações cardiovasculares mais graves. O alerta foi feito por pesquisadores
americanos em um artigo divulgado, ontem, no Journal of the American Medical
Association (Jama).
O estudo liderado na Universidade de Duke traz resultados
do acompanhamento, por quase 19 anos, de 4.851 voluntários. A constatação é de
que a pressão alta em adultos jovens aumenta o risco de surgimento de insuficiência
cardíaca, derrame e doença coronariana fatal, entre outros problemas, antes
mesmo de a pessoa chegar à terceira idade. “Esse é um primeiro passo para avaliar
se a pressão alta, como definido pelos novos critérios, é algo com que as
pessoas mais jovens devem se preocupar como um potencial precursor para
problemas graves. Embora seja um estudo observacional, ele demonstra que as
novas diretrizes de pressão arterial são úteis para identificar aqueles que
podem estar em risco de eventos cardiovasculares”, diz Yuichiro Yano, um dos
autores do artigo e professor-assistente no Departamento de Medicina
Comunitária e Familiar da universidade americana.
A equipe teve como referência
diretrizes de 2017, emitidas pela Associação Americana do Coração, que
reduziram os parâmetros que definem a hipertensão. Antes, a pressão alta era
considerada quando o aparelho de aferição indicava 140 por 90 milímetros de
mercúrio, ou o popular 14X9. Agora, um resultado de 13X8 já é considerado como
o estágio 1 da doença. A condição anterior, 12X8, é nível de alerta. E o
estágio 2 da hipertensão, classificado a partir de 14X9.
Yano e colegas rastrearam os dados de 2.657 mulheres e 2.194 homens com idade
média de 35,7 anos. Durante um acompanhamento médio de 18,8 anos, foram
diagnosticados 228 eventos cardiovasculares, sendo 109 casos de doença
coronariana fatal e não fatal, 63 de acidente vascular cerebral (derrame), 48
de insuficiência cardíaca e oito de doença da artéria periférica.
Considerando a pressão arterial
(PA) dos participantes, a taxa de incidência anual de doenças cardiovasculares
foi de 1,37 para grupo de 1.000 pessoas com PA normal; 2,74 para 1.000 pessoas
com PA elevada (condição de alerta); 3,15 para 1.000 pessoas com hipertensão no
estágio 1; e 8,04 para 1.000 pessoas com hipertensão em estágio 2. “Entre os
adultos jovens, aqueles com pressão arterial elevada, hipertensão estágio 1 e
hipertensão estágio 2 antes dos 40 anos (…) apresentaram risco
significativamente maior de eventos cardiovasculares subsequentes, comparados
àqueles com pressão arterial normal”, destaca Yano.
Novas pesquisas
Em um editoral publicado na mesma
edição do Jama, Vasan Ramachandran, professor da Faculdade de Medicina da
Universidade de Boston, alerta para o aumento dos casos de hipertensão entre os
mais jovens e para a existência de grandes lacunas sobre o fenômeno, envolvendo
desde a epidemiologia ao manejo dos casos mais críticos. Segundo o
especialista, são necessários mais estudos para entender se “os determinantes
sociais de saúde, mudanças culturais, costumes, dieta e desgaste do estresse
repetido ou crônico são fatores que podem estar impactando a pressão arterial
em jovens.”
Independentemente das futuras investigações, Ramachandran sugere algumas
medidas que devem virar hábito entre hipertensos que não chegaram aos 40 anos.
“Fazer exames periódicos de pressão arterial, adotar medidas simples de estilo
de vida, como exercícios físicos regulares, e evitar o excesso de peso
provavelmente serão úteis para manter níveis ótimos de pressão arterial.”
Também no Brasil
O avanço da hipertensão entre os mais
jovens também acontece na população brasileira. Segundo os dados mais recentes
do Ministério da Saúde, 10% das pessoas com idade entre 25 e 34 anos têm o
diagnóstico da doença. Na faixa dos 35 aos 44 anos, o índice sobe para 19%. Nem
as crianças e os adolescentes escapam. De acordo com a Sociedade Brasileira de
Hipertensão, 5% deles enfrentam o problema.



