
As medidas adotadas por governadores e prefeitos para conter o avanço do coronavírus se revelaram insuficientes para assegurar o grau de isolamento social necessário para frear o contágio da população, de acordo com um grupo de pesquisadores ligados à Universidade de São Paulo (USP).
Na avaliação dos especialistas, a falta de determinação das autoridades e as disputas políticas entre as várias esferas de governo envolvidas com o controle da pandemia têm contribuído para o descumprimento das medidas tomadas para reduzir a circulação de pessoas e aglomerações nas ruas.
Dados analisados pelos pesquisadores mostram que a adesão da população à quarentena foi maior em países europeus que adotaram medidas mais rigorosas do que as postas em prática no Brasil, como a Espanha e a Itália, onde a Covid-19 matou dezenas de milhares de pessoas nos últimos meses.
A maioria dos estados brasileiros adotou medidas drásticas em março, quando ainda havia poucos casos confirmados de infecção pelo novo coronavírus.
Todos fecharam escolas e estabelecimentos comerciais, proibiram aglomerações e recomendaram às pessoas que ficassem em casa para se proteger.
A paralisia de muitas atividades econômicas tem alimentado pressões pelo relaxamento das medidas.
Nas últimas semanas, governadores de pelo menos nove estados permitiram a reabertura do comércio em setores não essenciais, e cinco reduziram restrições a aglomerações, segundo o estudo.
Para comparar as medidas adotadas e seus efeitos no Brasil e em outros países, os pesquisadores usaram informações reunidas por um grupo da Universidade de Oxford que monitora políticas de combate ao coronavírus no mundo inteiro e dados do Google sobre a circulação de pessoas nas ruas.
O grupo de Oxford criou um índice para avaliar o grau de rigidez das políticas, que varia numa escala de 0 a 100. Quanto maior o número, maior o rigor das medidas.
Os pesquisadores brasileiros ajustaram os números para que refletissem também o empenho dos governos na implementação das restrições.

O que apontam as pesquisas?
Segundo o estudo, países como Argentina, Espanha e Itália atingiram índice 95 ao adotar medidas rigorosas e também impor multas para garantir seu cumprimento.
Na Espanha, a circulação de pessoas nas ruas diminuiu 74% em relação aos níveis observados antes da epidemia, de acordo com o Google.
No Brasil, o índice de rigidez das medidas atingiu 38 com o relaxamento ocorrido em alguns estados, a falta de fiscalização e a ausência de penalidades, segundo os pesquisadores.
Os dados do Google indicam que o Brasil conseguiu reduzir em apenas 42% a circulação de pessoas com essas medidas.
Informações coletadas pela InLoco sugerem que o grau de adesão às medidas de isolamento diminuiu em abril em todos os estados, mesmo onde não houve afrouxamento das restrições impostas.

A InLoco é uma empresa brasileira que usa dados de aplicativos em telefones celulares para analisar a circulação nas cidades.
No fim de março, a maioria dos estados brasileiros tinha alcançado redução de 70% ou mais nos deslocamentos para atividades classificadas como não essenciais, segundo a InLoco.
Na segunda quinzena de abril, a redução era de no máximo 60% na maioria dos estados, de acordo com o estudo.
Os pesquisadores afirmam que abandonar o isolamento agora, ainda que gradualmente, provocaria aumento rápido do número de infecções e mortes, sobrecarregando hospitais.
Os ganhos obtidos com a reativação da economia não compensariam a perda de controle sobre a evolução da doença, dizem.
Além de políticas de isolamento mais rigorosas, inclusive estabelecendo penalidades para quem as ignorasse, o grupo sugere que os governos tomem medidas para reforçar a proteção assegurada até aqui aos trabalhadores que correm mais risco de perder renda e ficar sem ocupação na quarentena.
O grupo responsável pelo estudo faz parte da Rede de Pesquisa Solidária, iniciativa que reúne pesquisadores da USP e outras instituições acadêmicas públicas e privadas para estudar as políticas de combate à pandemia no Brasil.
Os boletins publicados pela rede estão disponíveis neste endereço.



