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​Guido Bettarello: morre o homem, mas fica a lenda de um policial intocável

A história do homem que se firmou como um dos grandes policiais do Estado, orgulho para os francanos

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Guido Bettarello, sua sobrinha Stella e o irmão Bruno

​Em 1965, eu ainda era um meninote que jogava bola de meia na rua de terra na esquina das ruas Prudente de Morais com a Francisco Barbosa, na Cidade Nova. O rádio ligado nas casas ao redor chama para uma notícia extraordinária e todos aumentam o volume. Então vem a notícia de um assalto ao Banco Moreira Salles, com os bandidos levando 500 milhões de cruzeiros. Considerado o crime perfeito, durou cerca de dois minutos e repercutiu no mundo inteiro. A Polícia teve inúmeras dificuldades para encontrar pistas.

Até que Gerassimos Andreas Tsolias foi preso pelo delegado Guido Bettarello numa propriedade rural entre Franca e São José da Bela Vista. Foi o fio da meada para a resolução do então maior assalto que o Brasil já tinha visto (existem outros, políticos, mas essa é outra história). Sete gregos participaram do assalto. Pelo planejamento executado e pelo sangue frio de todos eles, seria difícil o esclarecimento do crime. Não fosse o gênio inquieto e o faro policial de um homem que era delegado de polícia substituto, mas que tinha uma técnica perfeita para esclarecer as ocorrências.

Depois da prisão em Franca, as informações foram passadas para São Paulo e o restante do grupo foi preso em Curitiba e São Paulo (as cidades se repetem, mas essa é outra história).

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A solução do crime foi divulgada de outra forma, porque era muito para a cabeça dos estrelados que um assalto dessa grandeza fosse solucionado por um delegado caipira na divisa dos estados de São Paulo com Minas Gerais.

Alguns anos mais tarde, já repórter policial e, mais do que isso, amigo do famoso dr. Guido Bettarello, perguntei a ele como prendeu o grego. A resposta foi de uma simplicidade estonteante: “Como delegado eu desconfiava de todo forasteiro”. Sem preconceito, mas ciente da sua missão, Guido Bettarello se achegava e perguntava o que a pessoa estava fazendo ali, de onde vinha, quando tempo pretendia ficar ou se ia ficar para sempre. Ao abordar o grego, percebeu o nervosismo e daí em frente tocou a investigação que deu no que deu.

Outra vez, chegou a Franca um homem que prometia a cura do câncer em função de estudos, etc e tal. Foi preso pelo dr. Guido Bettarello como um charlatão. Certa feita um sujeito se apresentou na cidade como artista de televisão. Como a televisão era coisa de poucos e ainda difícil de mostrar os sinais na tela, as pessoas saudaram e bajularam o artista. Menos o dr. Guido, que apurou a mentira e fez o sujeito passar uma noite no xadrez, despachando-o no dia seguinte.

Certa feita, Guido Bettarello foi chamado para desvendar um furto ocorrido no antigo supermercado Dário, na praça da Estação. Ele avisou a reportagem de que estava indo para o local. Menos de meia hora depois ele ligou novamente e disse: “não precisa vir mais, porque o furto já está solucionado e o bandido preso”.

Ainda em 1974, Roberto Carlos, o grande ídolo musical dos brasileiros, no melhor momento da sua fama, veio a Franca para um show beneficente. Era um pedido pessoal de Chico Xavier para ajudar as entidades espíritas da cidade. Roberto Carlos chega num jatinho no antigo campo de aviação, pista de terra, onde é hoje o Distrito Industrial. Lá estava o dr. Guido Bettarello para fazer a escolta e dar proteção a Roberto Carlos. Enquanto o artista esperava um carro para levá-lo para a chácara do empresário Wilson Sábio de Mello, onde se hospedou, o dr. Guido falou: “Entra aqui na viatura que o transporte fica mais seguro e mais rápido”. É bem provável que tenha sido a primeira e única vez que Roberto Carlos entrou num camburão. Foi todo cuidadoso, com um lenço protegendo o nariz e a boca, porque a poeira levantada era muita.

De todos os seus casos, um se destaca: a solução de um duplo homicídio ocorrido em 1974, no qual morreram um senhor já perto dos 80 anos e sua neta adolescente. Todas as informações levavam para uma direção, coisa difícil de resolver, porque nenhuma pista. Até que num domingo à noite, Guido Bettarello chama a imprensa na delegacia e apresenta o assassino. “Comércio da Franca” e “Diário da Franca” trabalham durante toda a noite de domingo para soltarem uma edição especial sobre a solução do caso que comoveu Franca. Foi a primeira (e bem provavelmente, a única)  vez que vi a mobilização para uma edição extra a partir do zero. Chamar os repórteres, os redatores, o fotógrafo, ir a Ribeirão Preto fazer o clichê, chamar cada um dos funcionários da oficina, ligar a caldeira das linotipos para o chumbo derreter e permitir a composição e ver, por volta das 8 horas da manhã, o jornal ser consumido pelos leitores com o caso resolvido pelo dr. Guido Bettarello foi uma grande experiência. Por isso mesmo, ele colocou seu nome na história de Franca. (Cesar Colleti)

Cesar Colleti

O que acontece e como acontece em Franca e região