
Ele passou 40 anos achando que estava certo. Que se conhecia melhor que ninguém. Que era dono de suas emoções. Que controlava seu destino. Viveu achando que tinha conquistado tudo o que desejava. Que fazia aquilo que queria. Que tinha os melhores amigos. A família perfeita. Que tinha a carreira que havia sonhado. Que era feliz. Um dia, amanheceu doente. Enfraquecia a cada dia e ninguém sabia ao certo o que ele tinha. Conheceu de perto a sensação de quase morte. E num momento de delírio, viu-se diante de um espelho. Assustou-se com a imagem refletida. Não se reconheceu de imediato. Após muito olhar para aquela figura que insistia em fitá-lo, ele se descobriu com 20 anos de idade. Parecia um século. Ele não entendia onde havia perdido a alegria que havia naqueles olhos. A pureza de sua alma. Na ânsia de construir uma vida segura, fechou-se numa couraça. Construiu muros. E agora, cada tijolo parecia desprender-se. A essência do que ele era, clamava por abertura. E o momento era agora. De volta do delírio, ele entendeu que vinha vivendo uma vida de mentiras. Algumas boas, claro, mas mentiras. Rodeado por pessoas vazias, vivendo de motivos fúteis e necessidades irreais, ele construiu um castelo. Mas o que ainda existia de vida em seu corpo queria liberdade. Agarrou-se nisso. Curou-se e decidiu que era hora de recomeçar. Queria sim, ser feliz. Mas agora, queria uma felicidade verdadeira. Poucos, mas bons amigos. A sua família, não perfeita, mas real. Um trabalho que lhe desse prazer. A humildade para reconhecer que jamais seria capaz de controlar suas emoções, muito menos seu destino. E força para que, sempre que fosse necessário, tivesse coragem e fé para começar tudo de novo.



