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A tragédia de Mariana e Barra Longa na visão de uma voluntária francana

Um relato de quem trabalha em péssimas condições para ajudar a população afetada

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Janaína Leão
Psicóloga, Arte Psicoterapeuta e Fotógrafa
Especial para o Jornal da Franca

Máquinas e pessoas na recuperação de Barra Longa

Gabriela Gomes Cardoso é a coordenadora local do SERVAS – Serviço Voluntário de Assistência Social, ligado ao Governo de Minas Gerais, Seu grupo atua em Barra Longa em parceria com a Secretaria de Assistência Social e tem o encargo de auxiliar tanto nas doações, como na distribuição e no planejamento, principalmente no planejamento dessas ações para atender a população. Além disso, está sendo feito um plano municipal de destinação de recursos a fim de reestruturar toda a lógica de renda da cidade e atender principalmente os que perderam sua fonte de renda em decorrência do desastre da represa da Samarco.

Sobre a situação atual de Barra Longa, Gabriela diz que as atividades da Samarco atualmente consistem basicamente em retirar a lama e reativar os pontos de comércio.Não houve óbitos. Os moradores que foram atingidos já estão realocados em casas alugadas pela Samarco. Foram 265 famílias afetadas diretamente. Ela esclarece que a Samarco contratou uma empresa terceirizada chamada DIALOGUE para fazer o cadastro dessas famílias afetadas, porém essa empresa ainda não conseguiu concluir o cadastro das 265 famílias. Esse número pode mudar porque será feita uma revisão desse cadastro e ainda falta cadastrar os afetados indiretamente, que tiveram a renda comprometida por falta de serviço, dificuldade de transporte, de locomoção até os locais de serviço.

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Gabriela Gomes Cardoso esclareceu que a Promotoria Pública havia dado um prazo para que se encerre esse cadastro, prazo já expirado sem que a Samarco conseguisse concluí-lo. O que está sendo priorizado em relação às obras da cidade é a reativação do comércio na área central, que condiciona a maioria dos comércios. Então, a maioria dos funcionários está empenhada nesse setor. A Samarco prometeu a reativação ainda este ano do comércio central, da pracinha e da limpeza e retirada do maquinário do local.

Para Gabriela, o que mais preocupa com relação às atividades da Samarco são as propriedades rurais, que têm um processo de revitalização muito mais complexo, pois envolve a EMATER, que vai fazer uma análise do gado, do terreno. As ações determinadas para esses locais ainda não estão definidas pela Samarco. Eles não têm um cronograma, parecendo que estão sendo deixados para depois. A Samarco envia caminhões pipa para essas localidades, mas houve relatos de moradores que não está sendo suficiente o abastecimento de água e também de alimentação para os animais.

Gabriela Gomes Cardoso está em Barra Longa desde 30 de novembro e foi fixada no local devido a uma constatação do SERVAS da necessidade de uma pessoa na cidade, para entender essas demandas e verificar o porquê estava acontecendo muito “retrabalho”. Então houve a necessidade de ficar uma pessoa responsável para que se consiga dar sequência ao trabalho de organização.

Essa semana houve alguns avanços no sentido de estabelecer o papel do SERVAS na cidade, dar credibilidade às doações, pois era um conflito também dos moradores que não entendiam quem estava sendo beneficiado ou não, tanto quanto de  organização, que era fundamental para que se tivesse  um controle de quem estava sendo atendido, e se tivesse também um controle de datas de validade para não se perder alimentos e maior eficiência no despacho desses alimentos.

Os voluntários do SERVAS conseguiram organizar o salão principal que foi cedido pela igreja e concentrou todos os alimentos nesse local, porém ainda existem alguns alimentos espalhados em locais de armazenamento inadequados. A previsão é que até o final da semana se consiga retirar todos os alimentos desses locais e posteriormente fazer a retirada de doações das casas particulares. Um dos problemas é que essas casas estão ocupadas principalmente com roupas e elas não podem ser armazenadas com alimento nem água pelo risco de contaminação. A questão das doações na cidade ainda não está definida porque ainda não se tem previsão de quanto tempo haverá para atender a população e qual a população que será atendida: se somente os afetados diretamente ou se os afetados direta e indiretamente, e ainda a população carente.

O Ministério Público determinou que fossem atendidos os afetados. Até a definição de afetados ainda não foi definida, nem pela Samarco nem pelo Ministério Público: isso ainda está em negociação, pois esta questão é abrangente, já que a população inteira se sente afetada de forma indireta pela poeira e pelo transtorno.  Afetado diretamente, segundo a Samarco, são as casas e propriedades em que a lama entrou e é isso que a Samarco pretende atender incialmente. A Samarco prevê uma renda mínima para essas famílias.

Gabriela Gomes Cardoso recebe um apoio da Samarco, tem  comunicação direta com eles, pode pedir auxílio de transporte, esse tipo de coisa. Desde que chegou está sendo bem recebida em suas solicitações.  O pessoal da Assistência Social já teve reclamações de que eles não estavam disponibilizando carro para entrega de doações, mas desde que Gabriela chegou isso tem melhorado. Nos primeiros dias ainda havia dificuldade de transporte, o que já foi resolvido. Além disso, a Samarco está pagando alimentação para os voluntários.

A comunidade precisa de voluntários, porém a cidade tem um entrave: não tem hospedagem suficiente. É preciso um corpo de voluntários para atender a zona rural, e há informação de que vem um grupo da Defesa Civil para esses locais.

A questão da doação de roupa virou um problema, porque ela não está armazenada adequadamente e podem proliferar ratos e baratas. Tem alguns lugares que armazenam roupas que já estão com mau cheiro. Uma das preocupações é com relação a um distrito chamado Gesteira, mais afastado de Barra Longa, com a característica dos moradores de serem mais isolados. Eles se auto gerenciavam mesmo antes do desastre. Esse distrito não tem nem comunicação por radio e ele foi afetado no deslocamento, pois nas duas pontes não passa transporte nem de carros nem de pedestres. Foi criado um acesso alternativo pela Samarco, mas esse acesso ainda é precário e nele só podem entrar veículos com tração 4×4; quando chove, nem eles conseguem entrar no local. Foi uma preocupação muito grande do SERVAS atender esse distrito, então foi mandado para lá um carregamento muito grande de água e de doações.

Houve relatos de animais morrendo tanto no dia do desastre quanto posteriormente porque ficam atolados na lama, bebendo água contaminada. As vacas encostam as tetas na lama, pegam mastite e essa mastite compromete a saúde do animal e elas acabam morrendo. O acesso a esses animais é preocupante e de caráter emergencial. A Samarco disponibilizou quatro carros de auxílio para a Defesa Civil, porém a real dimensão deste problema ainda está para ser constatado com a ida dos bombeiros aos locais de difícil acesso.

A prefeitura indiretamente tem alguns setores que estão colaborando, mas o prefeito não compra a briga dos moradores. O Movimento dos Atingidos por Barragens é que está fazendo este papel. Nas reuniões, o prefeito não se pronuncia, não exige da Samarco agilidade no processo. Uma questão que está pegando muito para moradores é a falta de datas para cumprir os prazos: eles não têm um cronograma para ser desenvolvido. Os moradores exigem que a Samarco dê uma posição de quando irão entregar a limpeza da cidade, as obras e o pagamento da renda mínima que foi determinada: um salário mínimo para as famílias, mais 20% de acordo com cada dependente, além de um ticket alimentação.

Esse pagamento já esta sendo feito em Mariana e aqui não. A Samarco alega que é porque o cadastro da DIALOGUE ainda não foi concluído, só que este pagamento de renda mínima é urgente, pois servirá para a subsistência dessas famílias que não tem mais onde retirar os recursos. Este pagamento só será dado aos atingidos diretamente, ou seja, os que a lama invadiu as casas, porém o Ministério Público recomendou que o pagamento do rendimento mínimo fosse feito também para os atingidos indiretos que perderam o emprego, que tiveram a renda afetada. 

Cesar Colleti

O que acontece e como acontece em Franca e região