Era 1977, eu tinha ido para o Rio de Janeiro estudar e morava numa pensão em Botafogo com meu amigo Velasquinho. Outro amigo nosso começava naquele ano sua residência médica no Hospital Federal do Servidor. Fomos visitá-lo e ficamos muito impressionados com a estrutura do hospital. Naquela época, 37 salas de cirurgia funcionavam a pleno vapor. O diretor do hospital podia acompanhar todos os procedimentos através de monitores de TV (de tubo e preto e branco, estou falando de 1977), já que em todas as salas câmeras de videotape registravam tudo.
Recentemente encontrei com esse amigo, agora médico já aposentado e que retornou ao Rio para encerrar sua carreira. Perguntei como estava o hospital e ele disse com certa tristeza:
– Virou sucata! Aparelhos de medir pressão arterial precisam ser presos com esparadrapo no braço do paciente, corredores antes impecavelmente limpos estão cheios de gente sem atendimento e as tais salas de cirurgia já não funcionam…
De 1977 para cá, muita coisa mudou: acabou a ditadura militar em 1985 e vivemos desde então um regime democrático, que já não é mais tão recente e nem tão jovem assim. A conclusão é que nenhum presidente eleito pelo povo desde então fez o suficiente e nem mesmo o necessário, nenhum deles devolveu ao povo em forma de estrutura e serviços o monte de impostos arrecadados. Em todos os níveis, nenhum governante fez as reformas prometidas em campanhas eleitorais. Tudo o que depende da ação do Estado míngua. Arrecadação recorde de impostos não faz senão alimentar a corrupção, não serve para melhorar a infraestrutura do país. Municípios endividados, Estados idem, que não conseguem investir em educação, segurança pública e saúde na medida necessária, prestando serviços aos cidadãos conforme manda a constituição. Não estou aqui querendo o fim da democracia, muito pelo contrário: é preciso aprender as lições e fazer as mudanças no sistema visando o seu aperfeiçoamento, para que possamos ter um horizonte.




