A noite do último domingo foi marcada pelo relançamento de dois perfumes de uma marca que ficaram no topo das vendas por muitos anos consecutivos e com certeza serão imortais no mundo da perfumaria. Esse relançamento aconteceu na Villa Philipe em Santa Teresa, Rio de Janeiro com a presença do grande e irreverente estilista que dá nome a marca Jean Paul Gaultier. O nome de Gaultier ficará para sempre gravado na história da moda como um estilista que rompeu conceitos há muito estabelecidos, o que resultou em seu apelido: “enfant terrible” (criança terrível, em português).
Ele sempre foi um mestre na arte de misturar gêneros. Sua moda e seus perfumes reconciliam opostos, cheia de códigos e de humor. Sua inspiração multicultural, o seu desacordo e provocação são a riqueza de suas criações vanguardistas, livres e generosas. Seu trabalho reflete sua personalidade: a demanda e a paixão pela beleza, liberdade, coragem, pensamento e o “French Touch”. O perfume é a primeira peça de vestuário que colocamos sobre a pele, e foi assim que ele lançou duas fragrâncias que marcaram sua carreira: Classique e Le Male. Com criatividade e ousadia se tornou um dos maiores expoentes da moda e suas fragrâncias quebram paradigmas e vão muito além do tradicional.
Em 1990, seu talento recebeu a coroação final ao ser ungido pela deusa máxima do pop, Madonna, que o elegeu como o estilista de sua turnê “Blond ambition”. Graças a sua intimidade com a subversão, o estilista trouxe a lingerie à mostra e imortalizou em Madonna o corpete com os bojos cônicos, imagem que ficou registrada como um dos ícones do final do século. Por conta da criação desse corset para sua musa, esse também virou inspiração e embalagem para o seu primeiro perfume, Classique, em 1993 assinado por Jacques Cavallier. É uma fragrância bem-humorada, resplandecente e cativante. A provocação despreocupada, ligeiramente vulgar, desse floral oriental deixa um rastro magnético por onde passa, revelando os sentimentos mais profundos de uma alma feminina que também é delicada e cheia de personalidade.
Já sua versão masculina, Le Male, foi lançada em 1995 e quem assina a fragrância e Francis Kurkdjian. O homem, essa é a tradução do nome deste clássico, mas um homem diferente. É uma fragrância que merece um lugar entre os perfumes que marcaram época e mais que isso: marcaram a história da perfumaria. É um perfume que revê conceitos de transição. Até sua criação em 1995, os perfumes masculinos não ousavam tanto com notas doces, as chamadas orientais (gourmand) como a baunilha. É uma fragrância fougère, assim como a maioria das fragrâncias masculinas, baseadas na lavanda e madeiras. Mas Le Male se insinua, tem sugestões femininas criando uma imagem de um homem sem estigmas e sem preconceitos. Le Male é um perfume ímpar, a virilidade e a gentileza se fundem num odor fresco, amadeirado e doce e tudo isso incrivelmente harmônico. Evoca notas urbanas, sorrisos abertos, estilos ousados de um homem que marca seu caminho despretensiosamente e paradoxalmente. Um fragrância totalmente atemporal, afinal, a moda passa por um momento em que o vestuário masculino e feminino se ‘confundem’ e até mesmo se unem com perfeita sintonia.
Digamos que depois da criação do Le Male, essas duas fragrâncias começaram uma história de amor, a bela moça em seu corset e o marinheiro que ‘estampa’ o frasco da fragrância masculina. E diversos filmes publicitários foram criados ao longo dos anos mostrando esse encontro desses dois personagens: O Beijo (1997), O Encontro (2001), Pele contra pele (2003), O Apartamento (2009), No Cais (2013), Welcome to The Factory (2016). Em todos os comerciais a trilha sonora é a mesma ‘Casta Diva’, da ópera Norma de Vincenzo Bellini.
E ontem a festa foi para seletos convidados para o relançamento desses dois ícones, que agora fazem parte do portfólio da Puig, uma multinacional espanhola que opera no setor da moda e fragrâncias e é acionista majoritária da marca Jean Paul Gaultier. O evento foi marcado pela culinária brasileira e o melhor da nossa música. Na segunda feira segue com jantar no Morro do Vidigal com direito a roda de samba e comidas típicas.
Dificilmente alguém não conheça essas fragrâncias, mas caso não conheça, convido você a experimentar a irreverência atemporal desses dois perfumes.
*Esta coluna é semanal e atualizada às quintas-feiras.