O botox é famoso por ajudar a esconder as rugas provocadas pelo
envelhecimento da pele. Pesquisadores americanos e ingleses modificaram essa
substância em busca de benefícios bem distintos da estética: o alívio da dor
crônica.
Em experimentos com ratos, o fármaco reduziu significativamente a
complicação. O estudo, detalhado recentemente na revista Science Translational
Medicine, poderá ajudar no desenvolvimento de terapias mais eficazes que as
usadas atualmente em humanos.
A equipe desconstruiu a molécula botulínica e a
remontou com o opioide dermorfina, gerando um composto que foi batizado de
Derm-BOT. No estudo, 200 ratinhos sofreram alterações que simularam as fases
iniciais da dor inflamatória e neuropática humana. O tratamento consistiu em
uma única injeção de Derm-BOT, que reduziu o desconforto.
A hipótese é de que o composto atingiu e silenciou
os sinais de dor em neurônios presentes na medula espinhal das cobaias. São
essas células nervosas que “sentem” diretamente a dor e enviam a informação ao
cérebro. Os cientistas também notaram que uma única injeção reduziu a
hipersensibilidade na mesma proporção que a morfina. “Injetado na coluna
vertebral, o Derm-BOT alivia a dor crônica e evita os eventos adversos de
tolerância e dependência frequentemente associados ao uso repetido de drogas
opioides”, destaca, em comunicado, Steve Hunt, um dos autores do estudo e
pesquisador da Universidade da Califórnia. Segundo ele, o composto não afeta os
músculos, como a toxina botulínica usada para reduzir as rugas. Ele bloqueia a
dor do nervo por até quatro meses sem afetar as respostas normais à dor.
“Realmente, poderia revolucionar a forma como a dor crônica é tratada”,
ressalta.
Thaís Augusta Martins, neurologista do Hospital
Santa Lúcia, em Brasília, e membro da Sociedade Brasileira de Neurologia (SBN),
explica que o botox impede que sejam liberados neurotransmissores, o que, para
fins estéticos, provoca a paralisia de músculos. “A sua junção com esse opioide
fez com que o alvo fosse direcionado aos neurônios que circulam a medula e
estão relacionados à dor”, diz
Longa duração
Opioides como a morfina e o fentanil são o padrão
atual para o alívio da dor, mas há poucas evidências sofre a eficácia do uso
prolongado desses medicamentos. Isso porque o corpo vai acumulando uma tolerância
a essas drogas. Além disso, elas podem ativar regiões de recompensa do cérebro,
causando dependência.
Mais de 2 milhões de americanos têm transtorno de
uso de opioides, e a maioria iniciou o problema ingerindo analgésicos opiáceos
prescritos por médicos. “Precisávamos encontrar um medicamento que não causasse
esse tipo de problema colateral. Esse sistema que criamos, semelhante a um lego
molecular, permite a criação de analgésicos de longa duração amplamente
desejados, sem os efeitos colaterais dos opioides”, explica Bazbek Davletov, um
dos autores do estudo e pesquisador do Departamento de Ciências Biomédicas da
Universidade de Sheffield, na Inglaterra.
Thaís Augusta Martins aponta outro
procedimento adotado na pesquisa que a faz promissora para o uso em humanos.
“Eles usaram uma dose pequena. Então, seria um ponto ainda mais positivo, com
mais chances de não ter problemas de dependência”, diz a médica. A neurologista
ressalta ainda que o tratamento da dor crônica merece atenção. “Entre 30% e 40%
da população sofre com esse problema, que é caracterizado pela ocorrência de
dor por mais de 30 dias. Os pacientes sofrem na escola, no trabalho e no
aspecto social, não conseguem interagir. Há uma necessidade grande de mais
tratamentos.”
Terapia também ajuda
A terapia cognitivo-comportamental (TCC) pode ser uma
valiosa alternativa no tratamento da dor crônica. Em artigo opinativo publicado
no Journal of Psychiatric Practice, Muhammad Hassan Majeed, do Hospital
Natchaug, e Donna M. Sudak, da Universidade de Drexel, ambos nos Estados
Unidos, discutem evidências científicas recentes que apoiam o uso da abordagem
para evitar ou reduzir o uso de opioides.
A dupla explica que a TCC ajuda pacientes a mudar a
maneira como pensam e administram as dores. Com ela, é possível passar a entender
o problema como um estressor. Dessa forma, o indivíduo consegue se adaptar para
enfrentá-la. Treinamento de relaxamento, agendamento de atividades agradáveis,
reestruturação cognitiva e exercícios guiados estão entre as intervenções que
podem auxiliar nesse processo.
Apesar das evidências, os autores
lamentam que a TCC e outros tratamentos não medicamentosos sejam subutilizados.
“Existe a necessidade de uma mudança de paradigma de um modelo biomédico para
um modelo biopsicossocial para o tratamento eficaz da dor e a prevenção do
transtorno do uso de opioides. O aumento do uso da TCC como uma alternativa aos
opioides pode ajudar a aliviar a carga clínica, financeira e social dos
distúrbios da dor na sociedade”, escreveram.



