
Toda minha infância e parte da adolescência morei na colônia de casas de uma grande e antiga fazenda em Araras, São Paulo. Íamos pouco à cidade, tínhamos quase tudo ali: escola; farmácia; um médico que atendia a domicilio; a d. Lazinha, benzedeira que curava quase todo tipo de mal; a igreja onde todos se reuniam aos domingos de manhã; e um clube recreativo onde calorosos campeonatos de bocha eram disputados após a missa . Havia também a “venda do seu João,”uma mercearia onde o pai fazia as compras do mês e onde eu e minhas irmãs comprávamos balas, doces e sacolés com as moedas que ganhávamos vez em quando por, segundo minha mãe, merecimento. O arroz, o feijão, o trigo, e as verduras eram adquiridas quase sempre de vizinhos das fazendas próximas, que plantavam, colhiam e vendiam aos colonos. Sacos de cereais e grãos disputavam espaços nas prateleiras da dispensa com pedaços de carnes defumadas, ovos realmente caipiras, açúcar, sal, grandes latas com carnes conservadas em gorduras…quase tudo plantado, criado, processado ali mesmo. Tempos de fartura.
Nossa casa, um casarão de piso vermelho e grandes janelas de madeiras pintadas de azuis celeste, tinha um alpendre todo ornamentado por samambaias e comigo-ninguém-pode, que dava acesso a sala principal. Nessa, na parede à direita de quem entravam, três portas protegiam o interior dos quartos da casa. Atravessando a sala, chegava-se a uma escada com dois lances de degraus feitos com dormentes donde se via, num plano abaixo, a cozinha com o forno e fogão a lenha pintados de vermelho, como o piso da casa. Minhas mais nítidas lembranças dessa época remetem a esse espaço.





