Para realizar o sonho de empreender, essas elas desafiaram preconceitos e se capacitaram
Mulheres, mães e empreendedoras em áreas onde homens são a maioria dos profissionais. Assim como inúmeras outras donas de pequenos negócios Brasil afora, essas são as principais semelhanças entre as histórias de Sandra Cicilini e Vanessa De Mani.
Enquanto Sandra atua no ramo de montagem de móveis e marcenaria, Vanessa é fundadora da startup Be Sun, do ramo da construção civil. Mulheres como elas ajudam a quebrar paradigmas sobre o “lugar” da empreendedora e reforçam a representatividade feminina em setores dominados pelos homens.
“Cada exemplo desse é fundamental para mostrar para outras mulheres e para a sociedade quais são as nossas possibilidades”, diz a analista de negócios do Sebrae-SP Kely dos Santos.
A jornada “oficial” de Sandra como montadora de móveis passa pela conclusão do curso Sebrae Delas – Elas constroem, uma parceria do Sebrae-SP com o Senai para capacitar mulheres para atuar no ramo. Formalizada como Microempreendedora Individual (MEI), ela iniciou o atendimento a clientes via aplicativo por meio de uma empresa conhecida no mercado de materiais de marcenaria.
Mas a sua história no ramo não começa aí. A empreendedora é formada em educação física e trabalhou como professora de natação e ginástica.
Mas, ao longo da vida, sempre acompanhou o trabalho de seu pai – que mantinha com dedicação um negócio para construir móveis de madeira. Após passar por problemas de saúde, Sandra precisou se afastar de sua profissão original e procurou outras opções para dedicar seu tempo.
“Fui promotora de vendas, supervisora de telemarketing e faço faxina também se for preciso”, conta. Depois de exercer diversas atividades, Sandra – casada e com uma filha hoje com 19 anos – começou a ajudar o pai na empresa de marcenaria em 2017. Daí surgiu a ideia de ingressar de vez no ramo, mas ela foi desencorajada por seu pai. “Eu já mexia em algumas máquinas e queria me aperfeiçoar.
No fim só deixava eu lixar e fazer coisas simples. Sabe como eu consegui mudar essa situação? Quando eu disse que iria tirar o meu serviço dele. ” Com a chegada da pandemia, Sandra foi chamada para ajudar no negócio do primo – que também atua no setor. E com o curso do Sebrae tem a esperança de dar continuidade à história de seu pai. “Eu não queria deixar o legado do meu pai morrer. Estar na marcenaria me traz lembranças dele e é um prazer muito grande. Sair de lá com o cabelo cheio de pó me faz feliz”, conta.
Atualmente, Sandra voltou a atuar como professora de ginástica e também com pilates, além de continuar no ramo de marcenaria e montagem de móveis.
O marido e a filha, porém, não encaram com tanta normalidade a segunda profissão da mãe. “Minha filha me chama de doida por estar nessa área. Por ficar cheia de pó, ser uma área mais masculina… E diz também que eu não sou formada para fazer isso. Acho um preconceito. Meu marido também não concorda. Mas eu faço porque é isso que eu quero fazer. Sou multitarefas e não dependo de ninguém.”
INOVADORA
A empreendedora Vanessa de Mani também mudou sua área de atuação e acabou ingressando em um mercado predominantemente masculino.
Sua primeira formação foi na área de saúde, mas após fazer um curso de pintura de quadros, depois de design de interiores, resolveu se lançar no empreendedorismo. Terminou o curso já com sua primeira cliente. “Não tinha experiência, mas sempre fui muito ousada. Tenho medo, mas vou com medo mesmo. Comecei a fazer trabalhos e pedir orientação para pessoas mais experientes”, relembra.
Depois de quatro anos trabalhando como autônoma, Vanessa observou que havia um vasto mercado para ser explorado devido a riqueza de recursos existentes. Foi quando ela teve a ideia de abrir sua primeira loja de material de construção, no ano de 2009. “Foi o meu primeiro tombo. Minha filha nasceu logo quando eu abri a loja e eu não tinha nenhum conhecimento de gestão.
Eu trabalhava amamentando e estava tudo muito difícil. Por fim, resolvi vender a loja e procurar o Sebrae”, relembra. O que Vanessa ainda não sabia, contudo, é que teria problemas também para a venda da loja, que ocorreu quatro anos depois.
“A pessoa que comprou a loja era um estelionatário. Não recebi o dinheiro e fiquei com várias dívidas. Estou me reerguendo agora”, diz. Mesmo com todas essas dificuldades, a empreendedora continuou trabalhando.
Ela queria permanecer no ramo da construção civil e resolveu entrar também para o mundo das startups, estruturando uma ideia e participando de programas de aceleração. No ano passado, ela foi selecionada para participar do programa Startup SP, do Sebrae-SP.
“Mulheres em startups não são nem 5% dos participantes. Eu sou uma mulher no ramo de inovação e também atuando em construção civil, uma das que menos inovam”, ressalta.
No fim de 2020, a empreendedora fundou a Be Sun, startup que coleta materiais que sobram ou são retirados de obras e podem ser reutilizados. A equipe é formada por seis mulheres voluntárias, até que a empresa consiga pagar o salário delas. “Recolhemos o material sem custo. Ele é vendido por preços mais acessíveis ao consumidor final”, explica.
Vanessa atua na área há 16 anos e diz que nunca sentiu dificuldades por trabalhar em um mercado onde as mulheres são minoria. “A verdade é que eu não sei se tenho um bom posicionamento, sou sortuda ou se as pessoas mudaram a mentalidade. Mas eu nunca tive problemas. Conheço mulheres que tiveram muitos, mas eu tenho tido boas experiências”, diz. Além disso, levantar a bandeira de um negócio formado por mulheres tem sido um diferencial para a sua trajetória.
MAIS OTIMISTAS
De modo geral, as mulheres também saíram na frente para empreender durante o período da crise provocada pela pandemia de Covid-19.
Entre dezembro de 2019 e março de 2021, o número de MEIs dirigidos por mulheres registrou um aumento de 25%, passando de 1.124.982 para 1.415.570, já descontando as baixas formais. De acordo com a analista de negócios Kely dos Santos, as mulheres empreendedoras têm uma postura mais otimista e são mais dispostas a enfrentar as adversidades ao iniciar um negócio.
“Elas relatam força e resistência. Quando elas decidem empreender, enfrentam o que for preciso”, observa.
Quando o negócio é em áreas ainda dominadas por homens, Kely reforça a determinação ainda maior dessas mulheres.
“Cada vez mais as mulheres estão assumindo profissões antes vistas como masculinas. Nas últimas décadas, os movimentos feministas foram ganhando força e vários espaços passaram a ser conquistados pelas mulheres. Hoje, com a inclusão digital, fica mais fácil levar informação a muito mais mulheres ao mesmo tempo e elas se fortalecem seguindo exemplos de sucesso”, diz.



