O velório do ex-prefeito de Franca, Maurício Sandoval Ribeiro(1977-1982 e 1989-1992) que faleceu na madrugada deste domingo ocorreu na Câmara Municipal. Ele foi sepultado às 16h, no Cemitério da Saudade.
O ex-prefeito, que tinha 77 anos, era casado e deixa três filhos e quatro netos. Também foi deputado estadual na década de 80.
Seu falecimento ocorreu depois de internação no Hospital Regional de Franca, onde tratava de um câncer no fígado.
De tradicional família francana, pessoa simples e de educação refinada, Maurício foi funcionário do Banespa, onde se aposentou.
Sua carreira política nasceu de um projeto que reuniu diversas jovens lideranças da cidade no final da década de 1970, quando integrantes da Arena – Aliança Renovadora Nacional – formaram na cidade o chamado “Grupo Novo”.
Maurício se elegeu prefeito vencendo velhos políticos da cidade, tendo como vice, o professor José Chiachiri Filho (também recentemente falecido). Sua eleição foi consagradora: venceu em todas as urnas da cidade.
Destacam-se nas ações de Maurício Sandoval Ribeiro, como prefeito, a aquisição da área para construção do maior núcleo residencial popular da cidade, o Parque Vicente Leporace, cuja primeira etapa teve 1027 casas; na segunda, foram mais 483 casas.
Ele começou a implantação do primeiro Distrito Industrial de Franca, o Dinfra, denominado “Antônio Della Torre”, conseguiu a construção do Terminal Rodoviário, e fez, às expensas da Prefeitura, a iluminação do Lanchão.
No seu governo, Franca deu um salto de população e bem-estar, com a implantação de mais de 80 bairros, destacando-se o Paulistano, o Aeroporto e o City Petrópolis.
Também conseguiu o governo do Estado a instalação do Ceagesp, no Jardim Roselândia.
Mas a grande obra de Maurício Sandoval Ribeiro foi no saneamento básico. O prefeito foi o grande idealizador para que a Sabesp – Companhia de Saneamento do Estado – se instalasse em Franca, assumindo a antiga SAEF, o que elevou Franca à condição de cidade com 100% de saneamento básico, um exemplo para todo o País
No aspecto político, o ex-prefeito sempre conquistou muitos benefícios para a cidade em virtude de seu bom relacionamento com políticos da época, como os ex-governadores Paulo Egídio Martins, Paulo Maluf e o ex-secretário da Fazenda e ex-presidente do Banespa (hoje Santander) e Ministro do Trabalho, Murilo Macedo.
Outra pessoa muito influente no Brasil, grande liderança nacional, que tinha um carinho especial pelo ex-prefeito de Franca era o empresário Antônio Ermírio de Moraes, do Grupo Votorantim.
Maurício também se relacionava muito bem com o então ministro do Turismo, Miguel Colassuono, ex-prefeito de São Paulo.
Maurício Sandoval Ribeiro foi deputado estadual, com expressiva votação. Deixou a Assembleia Legislativa para se tornar prefeito de Franca pela segunda vez.
Em dez anos de mandato, Maurício colocou seu nome na história como o melhor prefeito de Franca. E dele as pessoas tinham um elogio: sua honestidade.
Entrou na Prefeitura como bancário do Banespa e quando deixou a Prefeitura, voltou a ser bancário do Banespa. Viveu exclusivamente do seu salário.
A história da Sabesp
Maurício Sandoval Ribeiro, o prefeito francano que melhor se relacionou com as autoridades estaduais e federais, pediu o apoio de seu padrinho Murilo Macedo, que a esta altura era o Secretário da Fazenda do Governo do Estado.
O pleito foi passado a Reynaldo de Barros, então presidente da Sabesp, e com ligações pessoais com Franca. O projeto de substituição de toda a rede de água de Franca e da construção da captação, adução, tratamento e distribuição de água exigia não apenas um, mas dois caminhões de dinheiro.
Mas o projeto estava feito. Era necessário obter o financiamento de um programa específico do governo federal – o Planasa , que era gerenciado pelo Ministério do Interior, que tinha à sua frente Mário Andreazza.
Novamente, Maurício Sandoval atuou firmemente. Apelou a seu amigo Armando Malan de Paiva Chaves, que era chefe da Assessoria Especial do Presidente da República, João Batista Figueiredo.
Eis que um dia Maurício Sandoval Ribeiro recebeu uma correspondência pessoal de Paiva Chaves dizendo que o ministro Mário Andreazza havia liberado os recursos do Planasa para a Sabesp executar todo o projeto da troca e ampliação da rede de água em Franca, o que de fato foi feito.
Para se ter uma ideia da grandeza do projeto, basta dizer que o Parque Progresso, a Vila São Sebastião, o Jardim Guanabara e muitos outros bairros de Franca ainda não tinha água encanada em ….. 1980.
Esgoto, então, nem pensar. A execução do projeto transformou Franca num canteiro de obras e, em 1980, deixou Franca com capacidade de captar, tratar e distribuir água por 30 anos.
Mas, o trabalho precisava continuar. Por volta de 1984, José Everaldo Vanzo foi cursar pós-graduação em Saúde Pública na USP, campus de São Paulo. Curso intenso, que o deixou afastado de Franca por algum tempo.
Mas ele voltou com outra determinação: dotar Franca de 100% de captação e tratamento de esgotos. A premissa era de que cada centavo investido no saneamento básico economiza muito no tratamento de doenças. “Quem tem saneamento fica menos vulnerável a doenças”, dizia Vanzo.
Novamente, a história juntou José Everaldo Vanzo e Maurício Sandoval Ribeiro. Ao vencer a eleição para prefeito em 1988, no começo de 1989, Maurício foi se encontrar com o então governador Orestes Quércia.
E pediu ao governador que ele lhe desse o projeto de captação e tratamento de esgotos. Quércia quase caiu da cadeira, pois o que Maurício lhe pedia custava mais de 100 milhões de dólares. Quércia ainda perguntou se ele não queria trocar esse pedido por muitos outros. Maurício foi determinado. Não faria mais nenhum pedido no restante do seu mandato.
Orestes Quércia autorizou a Sabesp a obter financiamento para executar o projeto de tratamento de esgotos de Franca. Novamente, a cidade foi transformada num canteiro de obras: toda a rede de captação de esgotos foi trocada, assim como instalados os emissores e as estações elevatórias.
Mas a cereja do bolo foi a construção da Estação de Tratamento de Esgotos, que recebia todo o esgoto produzido na cidade, tratava, transformava o sólido em adubo e devolvia para o córrego dos Bagres a água livre de impurezas.
Franca se igualava às principais cidades do mundo e ficava muitos, mas muitos quilômetros à frente das outras cidades brasileiras.
Se Franca hoje é a melhor cidade brasileira em saneamento básico, deve isso a uma história de quase 40 anos, que começou a ser escrita por Hélio Palermo e passou por todas as outras administrações que perceberam a importância de continuar investindo.
Deve a Maurício Sandoval Ribeiro que lutou e conseguiu os recursos para o projeto de 100% de água e para 100% de esgotos tratados. Mas teve a luta de Sidnei Rocha e de Ary Balieiro para que os projetos não parassem.
Tudo isso reforça que uma conquista não vem em quatro anos. Se Maurício Sandoval Ribeiro tivesse trocado os 100 milhões de dólares por outras obras, pode ser que Franca ainda tivesse outras conquistas, mas dificilmente estaria em primeiro lugar no Brasil em saneamento básico.



