Mensagens,
posts, tuítes, streamming de vídeo, séries, games… a diversidade de conteúdos
digitais é tamanha que não é raro passar o dia entre o trio
celular-computador-tablet. Há consequências, contudo.
O
mais novo estudo a demonstrar isso foi publicado na última terça-feira, 17 de
julho, no “JAMA”: aqueles com mais alto uso de mídias digitais têm
mais chance de desenvolver TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e
Hiperatividade).
As
evidências não são novas, mas a pesquisa tem novidades principalmente porque
seguiu 2587 adolescentes por dois anos e analisou a influências das mídias
contemporâneas: a maior parte dos estudos anteriores considerava o uso de
mídias antes da avalanche de exposição atual.
Cristiano Nabuco, psicólogo e
coordenador do grupo de dependência tecnológica do Instituto de Psiquiatria da
Faculdade de Medicina da USP, comenta sobre o excesso atual. “O estudo
demonstra o que a gente já desconfiava há muito tempo. A gente vem alertando há
dez anos que haveria esse tipo de ‘cobrança”, disse.
Ele destaca ainda que as novas
tecnologias reproduzem operações mentais similares a de uma pessoa que tem
déficit de atenção. “É por isso que pessoas com TDAH têm mais facilidade
com a tecnologia”, explica. Na esteira, aqueles que não têm a condição
começam a ser expostos às mesmas operações mentais de quem tem a doença —
fator que aumenta o risco.
Na prática, no entanto, não se pode dizer nesse momento
que as mídias digitais causem o TDAH, avalia Nabuco. Há evidências de que pode
fazer com que uma pessoa com predisposição genética de fato desenvolva a
doença. Outro ponto, contudo, é que a tecnologia pode dificultar o controle de
impulsos, aspecto que faz parte de um dos sintomas do transtorno. “O uso
das telas, como a gente costuma falar, entraram pela porta dos fundos do
cotidiano, de forma recreativa e sem a atenção necessária”, diz Cristiano
Nabuco. “Tem de haver um controle sobre o uso, no sentido de que o
adolescente deve realizar suas atividades normalmente. A tecnologia deve ficar
restrita ao tempo que sobrar”, aconselha.
Autores da pesquisa destacam
que as mídias modernas não são comparáveis às tradicionais. “Há diferenças
de velocidade, de nível de estimulação e potencial de estimular alta
exposição”, escreveram.
Segundo
Nabuco, pesquisas mostram que, em 8 minutos de jogo em rede, por exemplo, há
uma forte liberação de dopamina, neurotransmissor associada à recompensa e ao
prazer.
A análise atual foi feita com
2587 estudantes entre 15 e 16 anos que não apresentavam sintomas ou diagnóstico
de TDAH. Eles foram seguidos por dois anos. Adolescentes foram questionados
sobre o uso de 14 plataformas digitais comuns.
Depois das perguntas, cientistas classificaram os jovens
de acordo com a frequência de uso de mídia em três categorias: sem uso, uso
médio e alto uso.
Resultados da pesquisa
– 9,5% das crianças que apresentaram alto uso em metade das plataformas
pesquisadas desenvolveram sintomas de TDAH;
– 10,5% das crianças que apresentaram alto uso em todas as plataformas
desenvolveram sintomas de TDAH;
– 4,6% das crianças que não relataram uso frequente de nenhuma mídia
digital desenvolveram sintomas de TDAH.
Adam Levanthal, professor da Universidade do Sul da Califórnia, um dos
autores do estudo e pesquisador, diz que a associação é significativa, embora
mais pesquisas precisam demonstrar se se trata de uma relação causal (ou seja,
que a tecnologia de fato leve ao transtorno).
Além
do TDAH, pesquisas anteriores demonstraram que, quanto mais cedo o uso, maior a
possibilidade de problemas de desenvolvimento da linguagem em crianças. O
cérebro precisa das interações sociais pouco previsíveis das relações humanas.
“A criança lida com a repetição com as mídias digitais” diz Nabuco.



