
Eles são companheiros fiéis, carinhosos. Às vezes, parece até que entendem os sentimentos de seus donos. Mas qual é a explicação para os laços profundos que unem cachorros e humanos?
A resposta pode estar em uma substância: a ocitocina, um hormônio produzido na glândula hipófise superior, que tem conexão com o hipotálamo, região do cérebro ligada ao bem-estar, às emoções, e que geralmente é produzida quando alguém está perto de quem gosta muito. Por isso é chamada de “hormônio do amor”. “Quando um bebê olha fixamente para os olhos da mãe, os níveis de ocitocina no cérebro dela aumentam, reforçando a ligação dos dois”, observa o médico veterinário José Alexandre Guimarães, acrescentando que pesquisas já haviam demonstrado que a produção de ocitocina também aumenta quando alguém faz carinho ou olha fixamente para um cachorro.
Agora, uma pesquisa realizada na Universidade de Azabu, no Japão, com 30 cães e os respectivos donos, mediu os níveis de ocitocina na urina dos animais e dos humanos, antes e depois da observação. O responsável, Takefumi Kikusui, concluiu que, quanto mais os cães e os donos se olhavam olhos nos olhos, mais ocitocina produziam os seus cérebros. Para José Alexandre, esse mecanismo de produção da ocitocina ajuda a entender o processo de evolução de cães e de humanos. E explica porque muitas pessoas consideram esses bichos parte da família.
É o caso do representante comercial Henrique Santiago, 29 anos. Dono de três cães – Monalisa, Ninja e Bali -, ele os considera como filhos. “Todo tempo que tenho disponível, faço questão de estar com eles. Conversamos, brincamos, passeamos. Eles fazem parte da minha rotina diária e quando não estou com eles, sinto como se algo estivesse faltando”, revela. E quem disse que a recíproca não é verdadeira? Recentemente, Henrique precisou ficar fora por uma semana a trabalho e cada um de seus cães reagiu de uma forma diferente. “Monalisa perdeu completamente o apetite, a ponto de meu pai ter que levá-la ao veterinário. Ninja chorava todas as noites e Bali ficou retraído. Embora sejam bem cuidados por meus pais e recebam o carinho deles, nossa ligação é muito forte”, conta.
Quando há perda
É por se ligarem tanto ao animal e o considerarem um membro da família que muitas pessoas sofrem com sua morte. Que o diga a professora Liliane Martins Ribeiro, 40 anos, que há três anos perdeu Mila, uma maltês que viveu com ela por oito anos. “Vivi o luto por quase um ano e até hoje não me sinto pronta para ter outro cãozinho. Éramos muito unidas, ela era minha companheira, inclusive dormia no meu quarto. Tenho medo de sofrer novamente”, admite.
Para o médico veterinário, a postura de Liliane é normal, afinal de contas, a dor que segue a perda de um ente querido como o animal de estimação é inevitável. “E a forma que poderá ajudar é se permitir viver o luto, pois é um processo que auxilia a suportar a perda e é necessário para que ocorra adaptação à realidade desta falta”, explica José Alexandre, lembrando que o processo como um todo pode levar dias, semanas ou meses, até que a pessoa esteja pronta para uma nova relação com outro animal de estimação.



