
A população brasileira está “cada vez mais indignada” com os sucessivos escândalos de corrupção e a crise política que atingiu o presidente Michel Temer.
Mas essa indignação, em vez de se canalizar em um “grito de basta” suficientemente forte para promover mudanças, vem se traduzindo em “desolação, apatia, conformismo”, considera o sociólogo Sérgio Abranches.
“As pessoas das mais variadas procedências estão dizendo ‘não tem jeito’, ‘eu quero ir embora’. Essa é a pior reação”, opina Abranches. “Eu gostaria de ver uma explosão social, gostaria de ver o povo na rua, completamente indignado, não aparelhado, realmente disposto a ir às últimas consequências, se necessário, para mudar a situação.”
O sociólogo de 67 anos acha ser necessária uma “ruptura” para restabelecer a representatividade política, uma reação popular desgarrada das “velhas estruturas partidárias”.
“Não estou defendendo a baderna. Mas essa (a mobilização social) é uma das poucas saídas que vejo para mudanças mais radicais no Brasil”, diz à BBC Brasil em sua casa no Rio de Janeiro.
Autor do recém-lançado livro A era do imprevisto: A Grande Transição do Século 21 (Companhia das Letras, 2017) e colunista da rádio CBN, Abranches considera que o governo Temer não tem mais salvação após a crise deflagrada pelas delações da JBS e acha que o presidente comete um “segundo crime de responsabilidade” ao prolongar sua permanência no poder.
Falando sobre o tempo de extensão da crise, Abranches acha muito pouco provável que vá até as eleições de 2018. “A Presidência Temer vai terminar antes disso. No curto prazo, você teria uma solução mais rápida que já foi descartada por Temer, a renúncia. Essa seria a forma mais rápida, eficaz e indolor de colocar o país de volta nos trilhos, mas já foi descartada. Ao decidir resistir, na minha opinião, ele cometeu o segundo crime de responsabilidade, porque isso vai custar caro ao país, a ele e ao orçamento público”, afirmou.
Sérgio Abranches diz que a população brasileira, em sua maioria, ao menos pelo que se consegue captar nas ruas, está desolada. Embora esteja cada vez mais indignada, essa indignação está produzindo uma desolação, uma apatia, um conformismo.
Segundo ele, as pessoas das mais variadas procedências estão dizendo ‘não tem jeito’, ‘eu quero ir embora’. Essa é a pior reação.
“Eu gostaria de ver uma explosão social, gostaria de ver o povo na rua, completamente indignado, não aparelhado, realmente disposto a ir às últimas consequências, se necessário, para mudar a situação”.
Para o sociólogo, “tem horas que a sociedade precisa dar um grito de basta que seja suficientemente forte, vigoroso e desgarrado dessas velhas estruturas partidárias, para que realmente seja ouvido pela elite e promova uma mudança. Acho que estamos precisando de uma ruptura”.



