“A Deus tudo, ao próximo muito, a mim o suficiente para viver”. Com essa frase como lema de vida, Padre José Afonso Dé faleceu nesta quinta-feira, dia 14 de julho, e se despediu da comunidade francana, após lutar por quase 15 anos contra uma complicação na próstata.
A morte se deu em decorrência de diversas infecções e também por uma forte pneumonia, depois de 24 dias de internação na UTI e 10 dias no quarto, na Santa Casa de Franca.
Filho de Manuel Afonso e Almerinda, Padre Dé nasceu na cidade de Santa Cruz do Rio Pardo em 1935.
Veio para Franca em 1990, após uma missão na cidade de Rifaina, e por aqui ficou e construiu parte de sua trajetória como missionário religioso. Ia em cada uma das dioceses para resolver os conflitos existentes, entre o clero e entre a comunidade.
Atuou no Projeto Meninos de Quintal, que tinha como objetivo ajudar e conscientizar crianças de famílias de classe média com algum tipo de problema, como uso de drogas, comportamento agressivo ou rebelde e atitudes conflituosas.
É o único padre do mundo, que se tem informação, que adotou crianças abandonadas em seu nome. Ao todo, foram dez filhos adotados, a partir de 1970, e criados com carinho e devoção, com o auxílio de seu irmão João Afonso.
Também foi reconhecido por apoiar vocações: mais de 20 padres foram ordenados por ele ao longo de sua vida religiosa.
“O Padre Dé acreditava muito nas pessoas. Ele buscava dar uma chance a todos, desde as crianças que não tiveram família, até aos seminaristas”, contou Padre Idair Pereira, reconhecido como seu filho espiritual.
Apesar de uma vida marcada pela caridade, Padre Dé teve seu nome nas manchetes nacionais e internacionais, após ser acusado de abusar sexualmente de nove adolescentes, entre 2009 e 2010.
Em 2011, o padre chegou a ser condenado a mais de 60 anos de prisão pelas acusações de estupro e atentado violento ao pudor. Entretanto, recorreu em liberdade e foi absolvido de sete dos nove casos pelo Tribunal de Justiça de São Paulo.
O religioso teve seu nome citado no filme “Spotlight – Segredos Revelados”, que retratou uma investigação jornalística de como a cúpula da Igreja Católica acobertou casos de pedofilia nos Estados Unidos.
“O Padre Dé lidou com esse período conflituoso sempre com muita tranquilidade. Ele tinha a convicção de que era inocente e lutou com braveza e consciência”, afirmou José Chiachiri Neto, advogado do padre.
Padre Dé era também reconhecido por ser um homem extremamente culto, verdadeiro, direto e com a habilidade de transformar o discurso formal da igreja em liguagem acesssível e compreensível para o seu interlocutor.
“Cada conversa com ele era uma verdadeira aula. Ele transportava a linguagem religiosa para a linguagem popular com uma maestria que lhe era própria. Eu o considerava um verdadeiro líder religioso. Quem ia conversar com ele saia totalmente transformado e se sentindo completo. O Padre Dé tinha uma fase muito famosa, que dizia “É preciso explodir a bomba”. Com isso, ele mostrava a necessidade de promover uma transformação nas pessoas, sempre para o bem”, finalizou Chiachiri.
A missa de corpo presente do padre será às 14 horas desta sexta-feira, 15, e logo em seguida haverá o sepultamento no Cemitério Santo Agostinho.



