
Depois do sucesso da canção “Assim você me mata”, na voz de Michel Teló, o mundo passou a conhecer a música sertaneja. Mas, se gostar do gênero acaba de virar moda no mundo, em Franca isso ocorre há anos – não é à toa que a cidade é conhecida como “Capital da Música Sertaneja”, já que aqui surgem, todos os dias, várias duplas sertanejas aspirando ao estrelato – algumas até conquistaram renome nacional, como Rio Negro e Solimões e Gian e Giovanni. E o sertanejo ganha cada vez mais força na programação noturna da cidade. A razão de tamanho crescimento é a existência de uma tríplice e perfeita combinação: ambientes adequados, público interessado e bons artistas locais.
Um desses lugares é a Morada du Capiau, que surgiu há cinco anos sem nenhuma pretensão de se tornar o que é hoje: a principal casa noturna em Franca e região quando se fala em moda de viola e música caipira. “No início, só tínhamos o objetivo de reunir a turma para ouvir moda de viola, então alugamos uma edícula no Residencial Paraíso, onde batizamos de República Morada du Capiau. A gente se reunia sempre lá e começamos a fazer muita amizade com os cantores de Franca, que passaram a se reunir lá aos sábados para tocar o dia inteiro. Não cobrávamos entrada e vendíamos cerveja a preço de custo”, conta Lucas Renato de Souza, um dos sócios.
Profissionalização
Com o sucesso da “brincadeira” inclusive entre os cantores – nessa época chegaram a cantar na república as duplas Cacique e Pajé, João Mulato e Douradinho, Belmonte e Amaraí e Durval e Davi – os amigos Lucas, Marco Aurélio de Souza, Walter Santana Silveiro Neto e Leandro Cesar Quintino – decidiram investir seriamente nisso. Por sorte, encontraram um verdadeiro tesouro: um sítio dentro de Franca. E é lá que funciona há três anos a Morada du Capiau. “Foi muito bom achar um sitiozinho dentro da cidade. A gente cria cavalo, galinha, cozinha no fogão a lenha. Tudo isso numa antiga casa de fazenda. A gente vive a vida do capiau mesmo”, revelam Lucas e Marco Aurélio, que diferente dos outros sócios, vivem na sede da casa noturna.

Desde então, já passaram pela Morada du Capiau grandes nomes desse universo sertanejo, como Delley e Dorivan, Matão e Mathias, Rio Negro e Solimões, Fátima Leão, Goiano e Paranaense, Cacique e Pajé, Zé Mulato e Cassiano, João Mulato e Douradinho, Lucas Reis e Thacio, Mococa e Paraiso, Belmonte e Amarai, Peão do Valle e Valentin, Divino e Donizete, Guilherme e Gustavo, Roberto Viola e João Carvalho, Lucas e Luan, Zeca e Léu, dentre tantos outros.
Uma curiosidade é que a casa só funciona na segunda-feira. Por isso, sua festa ficou conhecida como “Segunda Feliz”. E se você pensa que por ser em plena segunda-feira o número de frequentadores é menor, se engana. A Morada du Capiau está sempre cheia de apaixonados pela vida no campo e pela boa música caipira. Que o diga a massoterapeuta Claudete Del Poente, frequentadora assídua. “Desde que conheci a Morada du Capiau fiquei encantada com o lugar, que hoje faz parte da minha rotina. Quem gosta desse universo sertanejo e ama uma boa moda de viola, lá é o lugar certo: ambiente muito aconchegante, tranquilo, comida saborosa e muita gente bonita”, diz.
Os apaixonados
Claudete faz parte de uma extensa lista de pessoas que não abre mão de começar a semana sem “se jogar” na pista de dança da Morada du Capiau. Por oferecer um clima familiar e fazer questão de preservar o clima de fazenda, restringindo inclusive músicas que não sejam raiz ou o sertanejo mais antigo, os donos da casa criaram uma promoção: mulher que for de botina ou bota paga R$ 10; com outro tipo de sapato, paga R$ 20 para entrar. Já os homens com bota pagam R$ 20 e com outro tipo de sapato, R$ 40. “Quem não conhece, vale à pena. A Morada du Capiau já é conhecida em muitos lugares do Brasil, recebendo grande parte do público de cidades vizinhas que não perdem a Segunda Mais Feliz do Brasil”, reforça a massoterapeuta.

E o apreço pela Morada du Capiau vai longe, principalmente porque a casa conserva a cultura caipira. “Muitos músicos vêm sem convite, por ouvirem falar do nosso trabalho”, comentam os sócios, que contratam duas duplas a cada segunda-feira. “Fazemos questão de recebê-las em casa para almoçar e quando são dois violeiros, eles chegam a dormir em nossa casa. Esse corpo a corpo vai virando amizade… E a notícia se esparramando. Vem duplas de Mato Grosso, Londrina, do Rio Grande do Sul, Espírito Santo”.
Decoração
Para o pespontador Marcos Santos da Silva, 36 anos, o gosto pelo mundo sertanejo foi herdado do pai, criado em fazendas e sempre com muitas histórias para contar ao som de muita moda raiz. “Daí veio a paixão pelo estilo. Inclusive, faço questão de andar com botina, canivete na cintura e chapéu aos finais de semana”, revela.
Marcos faz questão de prestigiar os shows da Morada du Capiau toda a semana. Inclusive, desde que começou a frequentar o local, se tornou grande amigo dos donos e para ele, o que diferencia a Capiau das demais casas é que ela oferece um ambiente tranquilo, saudável e com boa música. “As duplas que cantam na Capiau fazem a diferença e contribuem para seu sucesso. Além disso, a decoração é o ponto alto, é como se estivéssemos mesmo na fazenda”, diz.

Amante do estilo sertanejo, o pespontador acredita que o aumento do interesse por ele em Franca venha ocorrendo porque propõe valores positivos e trocas saudáveis. “A gente sabe que a violência vem crescendo demais e o que vemos na Capiau são pais e filhos vivendo o gosto pela moda raiz, é uma troca de gerações”, observa.
Para Lucas, Marco Aurélio, Walter e Leandro, o segredo do sucesso da Morada du Capiau é justamente sua essência. “Somos de verdade, fazemos aquilo que acreditamos e que amamos. Então a maioria dos músicos vem por amor à causa, nem tanto pelo cachê, porque eles querem ver nosso trabalho continuar e a música raiz atraindo cada vez mais pessoas”, defendem.
A economia cresce
Cinto, fivelão, bota de bico fino, calça jeans apertada com a camisa para dentro, chapéu de couro e um copo de chope na mão. É esse o visual do vendedor Willian Teixeira, 26 anos, em todos os finais de semana. Ele que se apaixonou pelo estilo sertanejo desde adolescente, faz questão de incorporá-lo em seu dia a dia através de seu visual. “Minha paixão ultrapassa a música e os lugares que frequento. Tudo na minha vida gira em torno do sertanejo, da vida no campo”, diz.

Com essa redescoberta da vida “caipira”, algumas casas especializadas de Franca vivem um bom momento. É o caso da Comercial Salomão. No mercado desde 1963, ela é uma das principais referências quando se fala no segmento country, principalmente após passar a ser gerida por Ronaldo Salomão, um empresário visionário e apaixonado pelo estilo, transformando a loja em um charmoso espaço country para atender loucos por cavalos, bois, esportes relacionados e música sertaneja. “Faz 18 anos que a Salomão foi remodelada e hoje vendemos chapéus, calças, camisas, botas, cintos, fivelas e vários outros acessórios relacionados ao mundo country, sendo o chapéu o nosso produto mais característico, por isso o nome ‘A Casa do Chapéu”, comenta a empresária Aline Salomão.

Para ela, a explosão do sertanejo universitário tem muita relação com as letras das músicas que, afinal, são mais próximas da vida social dos adolescentes e das baladas, que os jovens costumam ir atualmente. “Vejo essa tendência com bons olhos. Atendemos na Salomão clientes apaixonados pelo estilo country sem importar com idade, classe social, raça, cor e até nível cultural. Nossos clientes são, simplesmente, pessoas que se encontram neste estilo simples de ser”, observa.



