
O deputado estadual Roberto Engler, fundador do PSDB, um dos decanos do partido na Assembleia Legislativa, entrou em rota de colisão com o Governo desde que foi surpreendido com uma avalanche de críticas após o anúncio de implantação de duas praças de pedágios em rodovias da região que, segundo ele anunciara nas três últimas eleições, “seriam duplicadas e sem pedágios”.
Sofrendo pancadas políticas até de prefeitos e vereadores de próprio seu partido, Engler, ao preço de muitas noites sem dormir e vendo sua saúde ainda mais atingida pelo estresse cotidiano da política, decidiu “dividir a conta” com o Governador Geraldo Alckmin e, desde o dia 1º de fevereiro, em Araraquara, bateu de frente com o chefe do Palácio dos Bandeirantes.
Passa-moleque
Engler disse, primeiro em entrevista exclusiva ao Jornal da Franca, e depois em discurso na Audiência Pública da Artesp, em Araraquara, que havia sido induzido a erro (para não dizer enganado) pelo Governador, pois a frase “esta estrada será duplicada e sem pedágio” era de Alckmin, não sua.
Seu discurso em Araraquara amenizou, mas não resolveu seus problemas. Ele continuou sendo vítima de críticas pesadas de aliados e adversários. O prefeito petista de Patrocínio Paulista, Marcos Ferreira, por exemplo, também como divulgou com exclusividade o Jornal da Franca, chamou o governo tucano e seus defensores de estelionatários eleitorais, caso os pedágios se confirmem.
Portas fechadas
Acossado, apanhando de todos os lados, inclusive de “companheiros” do tucanato regional, Engler escreveu duas cartas (uma em dezembro e outra na semana passada), bateu às portas do Gabinete do Governador no Palácio dos Bandeirantes, mas não passou do Balcão do Protocolo.
Ficou só nisso mesmo. Alckmin não o recebeu naquela hora e sequer acenou com a possibilidade de uma audiência ou de um encontro para ouvir as queixas daquele de quem foi colega como Deputado e depois teve como fiel escudeiro na Relatoria do Orçamento do Estado nos últimos 16 anos (em seus governos e nos de Mário Covas). O governador também não respondeu às cartas do deputado.
Desvalorizado
Perto de completar 28 anos como deputado estadual, em todos os sete mandatos pelo PSDB, Roberto Engler se sentiu como um adversário petista ao tentar contemporizar com o Governador Alckmin sobre os pedágios. O próprio Engler reclamou disso em Araraquara e depois em conversas políticas com aliados e ao se explicar aos seus eleitores.
Duas cartas – uma em 15 de dezembro passado, outra na semana passada – são muito pouco para quem os francanos imaginavam ter grande influência, ou ao menos reconhecimento do Governador.
Para um histórico de trabalho político-partidário como o de Engler, é incompreensível perceber que ele não tem (passados quase 28 anos de mandato), força política suficiente para “chutar a porta” do Gabinete do Governador e dizer: “Olha aqui, companheiro, a minha região não vai ter pedágio”.
Por enquanto, não
Com a forma com que tem sido tratado surgiram fortes boatos que levariam Engler a repensar suas posições e sua capacidade de intervir em questões que interessam ao seu eleitorado, no caso, Franca e região.
Nem mesmo o cacife de 122.544 votos que teve como deputado nas últimas eleições, levaram o PSDB a apoiá-lo na questão. Nenhum dirigente partidário levantou sua voz a favor dele. Todos parecem temer Alckmin (assim como alguns prefeitos tucanos e de outros partidos que “sumiram” das manifestações contra os pedágios).
Engler se mostra cansado. Indignado também. Não só com Alckmin, não só com os pedágios. Tem encrencas grandes a resolver, pois manda no PSDB na região, mas divide a liderança em Franca com Sidnei Rocha e Alexandre Ferreira, dois encrequeiros políticos de primeira grandeza.
Mas Engler não deve sair do partido por uma questão histórica e porque está perto de “pendurar as chuteiras”, cansado que está do vai e vem entre Franca e São Paulo. Fica um pouco também, depois de tantos anos e mandatos, sem muitas alternativas.
Ao contrário de Alckmin, que nada bobo, arranjou um cargo para Sidnei Rocha na Sabesp e impediu que aquele que foi o prefeito mais bem avaliado de toda a história de Franca, deixasse o ninho tucano. E ficasse pronto a voltar à Prefeitura, num confronto com Alexandre Ferreira, que acontecerá nas primárias que o PSDB deve fazer em maio que vem.
Janela do troca-troca
Centenas de deputados federais, estaduais, prefeitos, vices e vereadores vão mudar de partido, aproveitando a janela de 30 dias que será aberta em breve com a promulgação da emenda constitucional que permitirá a migração de detentores de cargos eletivos sem correr o risco de perder o mandato.
A transferência deve ocorrer numa espécie de “trampolim” para as eleições municipais deste ano e as gerais em 2018. Atualmente os detentores de cargos só podem mudar de partido preservando o mandato nos casos de grave discriminação pessoal, mudança substancial ou desvio reiterado do programa praticado pela legenda, ou quando houver “criação, fusão ou incorporação de partido”. Com o prazo fixado pela emenda, não será preciso qualquer pretexto para a mudança.
Contudo, a janela só não será mais atrativa porque, pelo texto da emenda aprovada pela Câmara e pelo Senado, os deputados não poderão levar a cota do fundo partidário e o tempo de rádio e TV para o partido ao qual se filiarão.
Os parlamentares incluíram essa proibição a fim de inibir a criação de legendas como o Partido da Mulher Brasileira (PMB). Criada em setembro, a sigla tem 21 deputados federais e já dispõe das benesses financeiras. Em Franca a legenda já cooptou a vereadora Valéria Marson, que alçou voo do ninho tucano.
A busca de espaço e as disputas municipais serão o mote das mudanças, mais do que conflitos partidários como os enfrentados ontem por Valéria Marson e hoje por Roberto Engler.



